Ana Paula Campos

21/12/2020
 
Então é natal, mas e a Kwanzaa?
 
O natal nunca fez muito sentido para mim. Antes mesmo de pensar conscientemente sobre algumas questões, a sensação que eu tinha era de que aquilo não era meu. Bom, basta pensar com um pouco mais de senso crítico: neve, pinheiros e guirlandas não são elementos da nossa cultura. Foi imposta a nós uma maneira única de celebrar a data, e seguimos reproduzindo esse modus operandi ainda que não faça sentido para nós. Afinal, nosso corpo carrega consigo a memória ancestral dos nossos antepassados. Até podemos reproduzir de forma mecânica a cultura alheia, mas no fundo do nosso coração a lembrança é bem diferente. 
 
Chegamos então à Kwanzaa, comum entre os afro-americanos e entre os/as demais membros da diáspora. Mas no Brasil, a celebração ainda é pouco conhecida.  A palavra Kwanzaa significa “primeiros frutos “, portanto é uma festa da colheita que comemora a fartura da comunidade e a vitória de todes sobre a fome, o extermínio e a morte. Em África, essa celebração era — e ainda é — muito comum entre povos como os zulus, os matabelos e os thonga. Assim, celebrar a kwanzaa é uma forma potente de rememorar nossos/as ancestrais e honrar nossos valores. 
 
A Kwanzaa está centrada em sete princípios — Nguzo Saba — reunidos pelo fundador, Dr. Maulana Karenga, baseando-se nas tradições antigas. A kwanzaa foi celebrada pela primeira vez no período de 26 de dezembro de 1966 a 01 de janeiro de 1967, durando assim sete dias.  Os princípios da celebração são:
 
Moja (união) – Estar unido como família, comunidade e povo;
 
Kujichagulia (auto-determinação) – Responsabilidade em relação a seu próprio futuro, como indivíduo e coletivo;
 
Ujima (trabalho coletivo e responsabilidade) – Sentido de construção colaborativa, de responsabilidade diária, conjunta, sobre as decisões e caminhos da comunidade e o entendimento de que os problemas e questões podem ser resolvidos numa perspectiva de grupo;
 
Ujamaa (economia cooperativa) – A construção e os ganhos da comunidade através de suas próprias atividades, favorecendo e estimulando a circulação interna dos recursos que promovam o bem-estar e crescimento conjunto;
 
Nia (propósito) – O objetivo, a finalidade maior do trabalho em grupo visando construir o sentido de comunidade, reatar laços e expandir a cultura africana;
Kuumba (criatividade) – Usar novas ideias para criar uma comunidade mais bonita, mais bem-sucedida para as gerações que vêm à frente;
 
Imani (fé) – Honrar os ancestrais, as tradições e os líderes africanos para celebrar os triunfos do passado sobre as adversidades e evocar com confiança a intuição.
 
Como se pode ver, durante sete dias, celebramos não apenas a fartura da colheita, mas encerramos um ano e iniciamos o seguinte lembrando que o mais importante é manter a nossa comunidade unida, trabalhando em prol de todes e garantindo a prosperidade geral. 
 
E quanto à troca de presentes? Ah... para mim, esse é o ponto mais bonito. Cada membro da comunidade deve confeccionar, de forma artesanal, algo significativo e que tenha sido pensado na pessoa que receberá o agrado. Deve ser algo simples, singular e produzido com afeto. Existe forma mais bonita de expressar nosso amor e gratidão por alguém?
E o natal? Cancelamos? Bom, vamos lembrar que binarismo é coisa do ocidente. Ninguém aqui está sugerindo ou mesmo impondo que você simplesmente jogue tudo fora e esqueça a forma como comemorou o natal até aqui. Nosso objetivo (e estou falando no plural porque não falo só por mim; falo em nome de toda a comunidade ancestral) é que saibamos das existências de outras formas de celebração. Uma forma pluriversal (e não mais universal) de ver, estar e interagir com o mundo. Permita-se viver outras experiências.
 
Feliz Kwanzaa! Feliz Natal!