Théo Alves

27/12/2020
 
Um cronista em busca de amenidades
 
 
É fim de ano. Para além disso, é o fim de 2020, o mais peculiar dos anos que as gerações atuais já viveram. Então eu gostaria de escrever esta, que é a última crônica do ano, cheia de amenidades e coisas felizes, algo parecido com os vídeos de gatinhos e crianças fofas que se popularizam (evito a palavra “viralizar” porque, se já não era muito chegado a ela, depois do Corona vírus passei a achar ainda menos apropriada) pelos recantos da internet.
 
Mas como escrever sobre amenidades quando nos aproximamos vertiginosamente dos 200 mil mortos por Covid 19 no país, sem levar em conta os muitos casos de subnotificação? Também é difícil ser ameno quando, no último fim de semana, pudemos testemunhar dois casos de racismo no futebol envolvendo as duas extremidades do esporte: o menino Luiz Eduardo de onze anos, agredido de maneira covarde pelo técnico adversário em um torneio sub-11 no interior de Goiás e o volante Gérson, que ouviu um “cale a boca, negro” de um jogador adversário pela Série A do Campeonato Brasileiro?
 
Para buscar as amenidades, tento pensar na criatividade dos que fazem confraternizações e reuniões de natal por videoconferência porque preferiram respeitar o isolamento. Experimento me concentrar na possibilidade de uma vacina para a Covid 19 circular entre nós em breve. Imagino as muitas espetaculares ceias de natal, os lindos lombinhos de porco temperados com molho agridoce, arrozes e farofas deliciosos. Vejo infinitos vídeos de comidas de natal no YouTube...
 
Porém, a falta de plano de vacinação por parte do Ministério da Saúde me interrompe e me irrita profundamente. As reuniões perigosas das famílias de classe média que agora entopem os hospitais particulares, adoecidos pelo Corona vírus, me dão raiva profunda e imensa tristeza. 
 
Some-se a isso o desgoverno nacional, o desmatamento recorde da Amazônia em novembro, o uso desavergonhado da máquina pública para proteger os criminosos da família do presidente, as muitas pessoas queridas públicas e anônimas que agora encontram-se numa luta terrível pela vida, e me dou conta de que ser ameno é uma tarefa ainda mais difícil neste Brasil de 2020.
 
Mesmo que eu tente pensar nas pessoas queridas, nos amigos que continuam próximos ainda que distantes, ou em todo o aprendizado e produção possível neste ano em que ficar em casa foi uma obrigação de tempo integral, não há como fugir do cansaço e do medo que todos nós partilhamos, das crianças mortas pela polícia ao longo do ano, da invenção de um “estupro culposo” por parte de um sistema judiciário cretino, machista e violento. É inevitável lembrar do colapso funerário em Manaus e de Madalena Gordiano, mantida em cativeiro para ser explorada como escrava por 38 anos por um professor e sua família de classe média. 
 
Assim, caros leitores, vocês puderam perceber que falhei miseravelmente na busca pela amenidade. Por mais que me esforce, a ideia constante de que estamos vivendo muito mais um fim de mundo que um fim de ano me afasta das amenidades. Por isso declaro que estamos todos liberados para assistirmos aos vídeos de gatos fofinhos e crianças engraçadas, porque – para lembrar Belchior – “a vida realmente é diferente, quer dizer, a vida é muito pior”.