Ana Paula Campos

04/01/2021
 
Pardo é papel. Será?
 
Depois que me descobri negra, passei a recriminar as pessoas dizendo que pardo é cor de papel. Mas será que o assunto pode cair nesse reducionismo na hora do debate? Bom, pretendo, com a coluna de hoje e aproveitando este início de ano, iniciar a discussão. Contudo não quero fazer uma análise acadêmica, tampouco definir o caminho que devemos tomar. Estou mais é pensando alto. Bora?
 
Durante anos, o IBGE admitiu inúmeras classificações autodeclaratórias quanto à cor da pele. Mas foi durante a década de 70 que o Movimento Negro Unificado teve a sagaz ideia de unir pretos e pardos na categoria negro. Desde que tomei conhecimento disso, passei a me declarar preta ou negra e a chamar meus irmãos e irmãs de raça da mesma forma. Quando o assunto já estava bem resolvido na minha cabeça, eu me deparo com um texto no Instagram da intelectual negra Carla Akotirene trazendo uma reflexão. Para ela, sempre que uma reportagem generalizava dizendo, por exemplo, que o número de estudantes negros aumentou nas universidades, ela questionava a credibilidade da matéria.  Afinal, de quem estaríamos falando? Pretos ou pardos?
 
Em um país racista e que tem como ideal a branquitude, pessoas negras de pele mais clara tem certa “passabilidade” social, o que as torna toleradas entre os/as brancos/as. Nunca aceitas. Ao contrário, pessoas de pele mais retinta encontram mais dificuldade de acessos. Se analisarmos os dados, considerando como pretos/as aqueles/as de pele mais retinta e pardos/as, negros/as de pele mais clara, será mais fácil perceber que pretos/as ainda são poucos/as nos espaços acadêmicos.
 
Por que essa diferenciação é importante? Porque só podemos pensar políticas públicas efetivas se tivermos clareza de quais problemas teremos que enfrentar. Além disso, negros/as de pele mais clara como a minha precisam estar atentos para perceber que seremos mais facilmente usados/as como token (único/a representante de um todo) pela branquitude, justamente por estarmos mais próximos/as do que eles/as elegeram e aceitam como ideal de beleza. 
 
Como eu já falei, a discussão de hoje não pretende bater o martelo em relação a nada. Somos diversos/as e temos uma encruzilhada de caminhos para seguir. Mas confesso que, depois dessa análise, nunca mais tive coragem de me declarar preta. Sou parda, logo, NEGRA!