Ana Paula Campos

11/01/2021
 
Respeitem meus cabelos, brancos.
 
 
Em uma das últimas lives que fiz, falei que tinha encontrado na escrita uma forma de expurgar a dor e que, depois de algum tempo, já não sentia mais a necessidade de falar de dores. Será? 
 
Será que curamos tão rápido as feridas sofridas pelo racismo ao longo de toda uma vida convivendo com o isso? E quando revivemos essas dores, depois de várias leituras que despertam nossa consciência social, e sofremos novamente, agora sabendo que tudo aquilo foi por causa do racismo? Não sei quanto a vocês, mas ainda tenho algumas feridas para relatar. 
 
Muitas vezes, vamos ouvir comentários racistas daqueles/as que amamos. O racismo não livra ninguém só porque são nossos parentes.  Já senti raiva, mas hoje compreendo que todes são frutos do meio, apesar de que com o avanço da internet, o que não faltam são debates sobre racismo e demais formas de opressão. 
 
Ouvi algumas vezes: “Ana Paula não gosta de tomar banho”. E quando retruquei, já pela milésima vez ouvindo e sentindo dor, recebi como resposta “mas eu estava só brincando”. Eu aguentei isso calada por anos. Naturalizei aquela violência. Não, não se tratava de uma brincadeira. Era uma agressão pesada à minha subjetividade. Afinal, negros/as são sujos/as e exalam mau cheiro, né?
 
Isso me faz lembrar de outro ataque. Estávamos na praia, muito calor, e nos abraçamos para tirar uma foto quando umas das presentes diz: “Eita! Alguém aqui está com CC”. Eu não sei se vocês sabem, mas CC significa “catinga de crioulo, de acordo com a filósofa Aza Njeri, do Rio de Janeiro. Mais uma vez aquele “destino” me perseguia. Para aquela pessoa, parecia ser normal debochar e humilhar pessoas negras, sendo ela branca. 
 
Ah, os/as brancos/as. Sempre achando que têm controle sobre a nossa vida, decidindo como devemos usar nosso cabelo, como devemos falar, nos comportar e até gastar nosso dinheiro. Quando nos impomos e dizemos “NÃO”, assertivamente, somos taxadas de pedantes, escrotas e temos nosso caráter questionado. 
 
Hoje sou lida como uma referência intelectual e de beleza negra, sendo, inclusive, gorda. Não percam mais o tempo de vocês tentando nos diminuir. A cada dia, fortalecemos mais a nossa autoestima e somos validados pelos/as nossos/as. O que vocês pensam não importa mais. Concluo minha fala com uma citação da nossa mais velha, bell hooks: “Honrar a nós mesmas, amar nossos corpos, é uma fase avançada na construção de uma autoestima saudável”. Sigamos.