Ana Paula Campos

18/01/2021
 
MULHERES INVISÍVEIS 
 
 
Ano passado conheci a obra de Zora Neale Hurston. Apenas ano passado. O romance Seus olhos viam Deus é tão magnífico que fiquei imaginando o sucesso que foi seu lançamento na época. Oitenta e quatro anos depois, descubro que essa obra ficou no silêncio por anos. A crítica literária julgou o livro fraco. Negros leram-no como inadequado. Décadas depois, em 1975, Alice Walker, a célebre escritora de A cor púrpura, resgata a obra do esquecimento e sentencia: “Não há livro mais importante do que este!”. 
 
Zora Neale Hurston foi uma antropóloga, folclorista, roteirista, cineasta e escritora norte-americana. Escreveu mais de 50 contos, peças e ensaios. Produziu filmes e se tornou figura central no movimento do renascimento do Harlem. Seus escritos denunciavam segregação racial e de gênero, além de debater questões como colorismo e disputas internas dentro do movimento negro. Zora Hurston é simplesmente uma potência negra que foi silenciada assim como tantas de nós. 
 
Há anos estamos lutando contra esse cancelamento. Gayatri Spivak questionava: “Pode o subalterno falar?”. Grada Kilomba tensiona: “Quem valida os nossos discursos?”. Nossa mais velha, Concieção Evaristo, ao se candidatar à cadeira número sete da Academia Brasileira de Letras, ocupada anteriormente por Castro Alves, recebeu apenas um voto. A vaga ficou para um homem branco cis.
 
Estamos em 2021, e o que se nota é pouco ou quase nenhum avanço desde 1937, quando a obra Seus olhos viam Deus foi lançada. O mercado editorial ainda continua masculino, branco, hétero e cis. As poucas obras de mulheres negras publicadas por uma editora ainda são pouco lidas e divulgadas. Até dentro do próprio Movimento Negro a irmandade é questionável. Alguns membros apoiam apenas aquelas pessoas com quem têm afinidade. “Afinal, quem é essa fulana? Eu estou no movimento há anos”.
 
É certo que existe toda uma estrutura de poder hierárquico que opera para o apagamento de vozes negras, mas é triste quando constatamos que não existe articulação concreta dentro do Movimento Negro que caminhe para o nosso empoderamento. Devo concordar com a fala de um dos personagens da obra de Zora: “Nós preto é muito invejoso uns dos outros. É por isso que a gente não vai pra frente. A gente fala que o branco deixa a gente lá embaixo. Besteira. Nós memo deixa nós lá embaixo”.
 
A arte imita a vida? Não sei. Gostaria muito de estar errada.