Andreia Braz

18/01/2021
 
Carta a Nelson Patriota 
 
Meu caro amigo,
 
embora saiba que não lerás esta carta, eu a escrevo porque assim o mantenho perto de mim. Você partiu há dois dias e hoje senti falta de um tempo em que nos falávamos quase todas as noites. Passávamos horas e horas ao telefone conversando sobre literatura, cinema, música, mas também sobre amenidades. Afinal, a vida não é feita só de obrigações. E uma das muitas lições que aprendi contigo foi sobre a importância de ter momentos de lazer, o que você considerava fundamental para a qualidade do nosso trabalho (sempre me falava da importância das pausas, sobretudo naqueles trabalhos mais extenuantes). Aliás, o trabalho era sempre uma pauta de nossas conversas, fosse ao telefone, fosse em nossos encontros semanais com os amigos da confraria. E isso muitas vezes depois de alguma conversa nos intervalos do trabalho ou mesmo depois do expediente. 
 
Sempre admirei sua paixão pelo trabalho e seu comprometimento com tudo que fazia. Profundo conhecedor da gramática, você também era flexível quando necessário, reconhecendo que a língua é um organismo vivo e está sempre sujeita a mudanças. Afinal, muitas vezes é preciso considerar o gênero em questão e o estilo do autor antes de sugerir certas mudanças em determinados textos. E quantas vezes eu não lhe escrevia para tirar dúvidas e você, gentilmente, respondia todas elas, uma por uma. Se você tivesse alguma dúvida sobre as Normas da Abnt, fazia o mesmo. Mas de repente você partiu e eu não tenho mais aquele parceiro e amigo a quem recorrer para falar de trabalho ou de qualquer outro assunto. Ainda não consigo acreditar que não receberei mais aquela sua mensagem ou ligação querendo confirmar nosso almoço semanal. Você não faz ideia do vazio que deixou por aqui. A alma chega a doer de tanta saudade.
 
E por falar em saudade, estava lembrando dos nossos “passeios peripatéticos”, como você costumava definir nossas andanças pela cidade. Quando trabalhávamos na Editora da UFRN, você costumava me convidar para jantar no shopping ou mesmo tomar um café e bater um papo descontraído depois do expediente. Horas intermináveis e cheias de aprendizado. Um dos seus lugares prediletos era uma pizzaria italiana de Ponta Negra. A pizza marguerita era sempre a escolhida, acompanhada de uma coca com gelo e limão.
Nessa época ainda existia a Potylivros no Praia Shopping e era sagrado você ir até lá para conferir as novidades e tomar um café. Lembro da sua tristeza quando a livraria fechou as portas (eram três lojas em Natal). Vez por outra, também íamos ao Natal Shopping, quase sempre a um restaurante chinês que não existe mais, ou ao Divino Fogão. Você sempre elogiava a comida do chinês e dizia: “não há nada melhor que uma comida quentinha”. No almoço, a preferência era o Camarões ou o Caicoense. Depois do almoço, o sagrado café na Kopenhagen, onde acabou sendo formada a nossa confraria anos depois. Se ficasse até mais tarde por lá, você gostava de tomar um café com uma fatia de bolo de laranja no Café da Praça. Uma amizade que foi além do ambiente de trabalho e só me trouxe alegrias e aprendizados.
 
Todas essas lembranças me remetem a uma crônica de Rubem Alves sobre a amizade. Depois de descrever de forma poética o valor de um amigo, ele nos diz: “A beleza da poesia, da música, da natureza, as delícias da boa comida e da bebida perdem o gosto e ficam meio tristes quando não temos um amigo com quem compartilhá-las”. Apesar do vazio que me consome, sou feliz por tudo que partilhamos juntos, meu amigo. Tantos momentos inesquecíveis, tantas conversas edificantes, abraços, sorrisos, olhares, confissões... Quando a saudade apertar, vou lembrar de cada um deles e da alegria que era estar na sua presença. 
 
Voltando aos telefonemas noturnos. Com o tempo, essas ligações foram rareando e nossas conversas se resumiram aos encontros no café, que eram sempre muito estimulantes, embora nem sempre eu pudesse conversar exclusivamente contigo. Afinal, a nossa confraria tem uns doze membros, e alguns agregados também. De todo modo, era sempre muito bom estar contigo. Confesso que às vezes ficava meio perdida quando vocês conversavam sobre alguns temas de política e outros assuntos sobre os quais eu não entendia muito. Você, Hedilberto e Medeiros eram os mais empolgados com esses temas. Nesses momentos, procurava apenas escutar e aprender com vocês. Também gostava quando o papo tomava o rumo da filosofia, especialmente quando Bruno Goto estava presente. Uma das pautas eram as obras do filósofo Slavoj Žižek, um dos mais importantes pensadores da atualidade, admirado por vocês dois. Segundo o jornal britânico The Guardian: nada está fora do campo de ação de Žižek, “um pensador profundamente interessante e provocativo”. Atelmo, bibliófilo de carteirinha, de quem já falei em outra crônica, também é um brilhante orador e a conversa ficava ainda mais empolgante quando ele estava por lá, sobretudo quando o assunto era filosofia, religião, literatura. Além dos livros, ele sempre tem ótimas dicas de filmes e séries. Iuri e Hiliomar não ficavam de fora dessas conversas.  
 
Não raro, depois do segundo café, você me convidava para ir à livraria. No meio do caminho, poderia haver um sorvete italiano. O nosso preferido era o de coco. Que saudade desses momentos, meu amigo! Na livraria, depois de ver as novidades, você seguia para a estante das promoções. Da última vez em que estivemos lá, antes da pandemia, você me presenteou com um livro de Eça de Queiroz, “O Mandarim”. Quase sempre havia um momento divertido nesse périplo livresco: analisar os títulos de alguns best-sellers, que ficavam logo na entrada da livraria, ou mesmo alguns trechos de certas obras que não nos agradavam. O riso era garantido.
 
Vez por outra, eu também o encontrava na livraria do campus, quase sempre por acaso, salvo nos dias de eventos musicais e/ou feiras de livros, e o convite para um café era certo, mesmo que você estivesse apressado. Quando não havia espaço nas mesinhas, ficávamos ali mesmo no balcão. Era sempre uma alegria desfrutar de alguns minutos contigo. Sua presença era sinônimo de tranquilidade, afeto...
 
Você pode até não estar aqui fisicamente, mas as lembranças dos momentos partilhados e o conhecimento disseminado por você permanecerão vivos em meu coração. Isso é o que me conforta. Farei o que estiver ao meu alcance para continuar divulgando sua obra e mostrando a importância do seu trabalho para a cultura do Rio Grande do Norte. Afinal, você foi múltiplo e atuou em tantas áreas distintas relativas ao jornalismo e ao fazer literário: edição, revisão, tradução... Aliás, já avisei a Otávio que gostaria de prestar uma homenagem ao meu amigo que partiu no Dia de Reis, pelo muito que ele fez pela literatura do nosso estado. Como diz o poeta de Itabira: “as coisas findas / muito mais que lindas, / essas ficarão”. 
 
Tenho outras novidades relativas ao meio literário, mas deixarei para contá-las na próxima carta. Escrever é uma forma de amenizar a saudade e o vazio que você deixou em meu coração. Estaremos sempre juntos. Afinal, como disse Rubem Alves: “A experiência da amizade parece ter suas raízes fora do tempo, na eternidade”.