Théo Alves

24/01/2021
 
Maneiras de voltar para casa
 
 
A sensação de estar de volta para casa é das mais reconfortantes que existem. Ainda que essa volta não seja literal, mas uma metáfora, é das melhores coisas que podemos fazer por nós mesmos. E há algumas maneiras para se conseguir isso.
 
Quando o ano começou, tinha me decidido por rever alguns filmes que me fazem sentir a alegria solene da beleza, que me emocionam e fazem lembrar de bons tempos. Eu que raramente revejo filmes, escolhi este caminho para abrir 2021. 
 
Para dar início a essa volta, o primeiro filme que revi foi “O Carteiro e o Poeta”, baseado no livro de Antonio Skármeta, que conta uma história fictícia a respeito do exílio do poeta chileno Pablo Neruda em uma pequena aldeia de pescadores na Itália e sua amizade inesperada com um carteiro apaixonado em busca da poesia.
“O Carteiro e o Poeta” é uma breve lição de poesia, em parte por Neruda (interpretado com toda a precisão de Philippe Noiret), mas sobretudo pela descoberta do poder e da beleza da palavra pelo carteiro Mario Ruoppolo, vivido pelo ator italiano Massimo Troisi, que morreu pouco depois do fim das gravações e que deu a dose certa de fragilidade e doçura a seu personagem. 
 
Troisi, que também foi um dos roteiristas do filme, sofria de um problema no coração e teve grandes dificuldades para conseguir realizar seu trabalho durante as filmagens, chegando a desmaiar algumas vezes no set.
 
Ainda que tenha sua dose de melancolia, o “O Carteiro e o Poeta” tem cenas engraçadas, delicadas, doces e poéticas, sobretudo. É impossível não se emocionar com a descrição que Mario faz sobre sua ilha ou com o verso “Seu sorriso se abre como uma borboleta”, dito à musa do carteiro em sua busca pela poesia e pelo amor, que são sinônimos em alguma escala. A repetição da palavra “metáfora”, por exemplo, nos arranca risadas inesperadas e o componente político que ronda a história não nos deixa esquecer da vida real e muitas vezes cruel.
 
Sempre que vejo “O Carteiro e o Poeta” tenho a sensação de que estou voltando para casa. É a sensação do conforto, do aconchego, de me sentir encontrado e um pouco menos só no meio de todo o caos e desta imparável máquina de moer gente em que vivemos todos. 
 
E claro está que o cinema não é a única maneira de voltar para casa. Também sinto esse conforto quando cozinho, por exemplo: fazer o próprio pão e ver a massa fermentar, sentir o cheiro tomar conta da casa, cortá-lo ainda quente... ou respeitar o tempo de um cozido, ver a cor e o perfume surgirem da panela para o mundo, quente, saboroso e aconchegante. 
 
Ouvir discos que nos acompanham há muito tempo também estabelece esse caminho de retorno. Estava a pensar estes dias que o “Songs of Leonard Cohen”, de 1967, é um disco que me faz voltar para casa. Ele me remete às tardes de meados dos anos 90, ao lado de meus amigos, quando ouvi pela primeira vez o bardo canadense entoando hinos como “Suzane” e “That’s no Way to Say Goodbye”. Fiz as contas rapidamente para descobrir que tenho ouvido esse disco há 25 anos e inúmeras vezes é para ele que retorno quando quero me sentir em casa outra vez.
 
Um disco do Raul Seixas também me remete, por outros motivos, a essa sensação. Eu ainda muito menino ouvia o “Krig-ha, Bandolo”, cuja foto de Raul na capa remete a um Cristo e, talvez por isso, o disco em minha casa fosse coberto por um plástico púrpura para diminuir a blasfêmia. Tocava o disco todas as tardes na vitrola que tínhamos e o conhecia tão bem que cantava até o pulo da agulha em um arranhão do vinil durante “Mosca na Sopa”, primeira canção do álbum.
 
É possível voltar para casa quando encontramos lugares de afeto, tenhamos ou não os visitado no passado, porque também se pode voltar para casa pela primeira vez. Livros são excelentes companheiros no caminho de volta: reencontrá-los na estante, tirá-los de seu sono por um momento e voltar para onde ou quando o lemos tantos anos antes pode ser emocionante. Encontrar pessoas nos faz retornar à casa: sentir-se encontrado e menos só no mundo é o tipo de encontro que nos provoca e convida à gratidão e à serenidade. 
 
Há boas maneiras de voltar para casa. Por isso, mesmo que a nossa imagem pessoal de casa possa não ser das melhores, somos capazes de ressignificar esse lugar de pertencimento onde estão nossas coisas, sentimentos e memórias para recriarmos essa sensação tão bonita de estarmos de volta, menos sozinhos no mundo.