Ana Paula Campos

25/01/2021
 
DECANTAÇÃO
 
No ano passado, enveredei na escrita de contos, graças aos incentivos daquela que chamo carinhosamente de “madrinha”, Ana Cláudia Trigueiro. Enquanto pensava sobre o que escrever, sentia o coração preenchido pelas dores do passado. O primeiro conto era uma denúncia, um desabafo. Aquela experiência que só pude compreender anos depois. Estupro. Cada vírgula era uma tentativa de expurgar a culpa que carreguei ao longo de anos por acreditar nas falácias ouvidas durante a adolescência de que “mulatas têm o corpo quente”.
 
Depois deles, vieram outros. Tantos outros. Em cada escrito, eu estava lá. Escrever era reviver cada momento, cada dor, só que de uma forma ainda mais cruel, já que a experiência vinha atrelada à violência racial. Eu permiti que me ferissem enquanto buscava amor em braços alheios. Silenciei para o sofrimento de irmãos e irmãs. Eu nem tinha ligação com essas pessoas. Era morena, quase branca. Foram mais de 30 anos na mais completa alienação até descobrir o legado das/os mais velhas/os. O alívio de saber que não andamossós veio acompanhado do desespero de perceber quanto tempo eu perdi. Foram mais de 30 anos...
 
Eu precisava correr. Corri.
 
Leituras, cursos. Lives, pesquisas.
 
Quanto mais eu lia, mais sentia que estava só começando. Mas o que eu pretendia com tanta pressa? Me livrar da culpa? E eu tenho culpa?
 
Sankofa! Eu precisava deixar um legado. Precisava proteger as que viriam. Mas a insegurança é algo que nos acompanha. Nada nunca está bom o suficiente.
Desabei. Chorei. Adoeci. 
 
Tinha a sensação de ser um bule com água fervendo, cheio de pó de café preto. A cada momento, eu acrescentava mais café, e a mistura ficava cada vez mais forte.
 
A nossa sorte é que não caminhamos sós. Meu abebé de luz, Hildália Fernandes, veio ao meu amparo: “Nós não devemos nada. Quem nos feriu é que deve. Permita-se uma trégua para decantar”. Era isso!!! Eu precisava me permitir parar, sentar no jardim da minha vida e saborear meu café, feliz pelo feito.
 
Quando uma intelectual que você ama e respeita diz “Confie e continue fiando”, a gente honra e celebra.