Ana Carolina Monte Procópio

25/01/2021
 
TRABALHO E ÓCIO EM TEMPOS DE PANDEMIA
 
 
 
“O homem depressivo é aquele animal laborens que explora a si mesmo e, quiçá deliberadamente, sem qualquer coação estranha. É agressor e vítima ao mesmo tempo. (...)
A queda da instância dominadora não leva à liberdade. Ao contrário, faz com que liberdade e coação coincidam.”
                                                                                                                                         Byung Chul Han - A Sociedade do Cansaço
 
Enfim, férias! Depois de um longuíssimo ano de 2020, tirei um tempo para descansar, para parar de trabalhar. E como estava precisando! A sensação quase irreal de não estar obrigada a funcionar incessantemente o dia inteiro e muitas vezes à noite e nos fins de semana dá uma leveza estranha, uma sensação de falta de algo, de um quase delito. Estranho não se acostumar com a ausência de jugo sobre si. 
 
Essas reflexões são muito mais agudas agora. E pode-se perguntar: o que a pandemia tem a ver com isso? Tudo. Foi a necessidade de isolamento que jogou boa parte do mundo produtivo para dentro de casa, para o trabalho de forma virtual. Durante todo o ano, refleti várias vezes sobre a mudança avassaladora que ocorreu sem mesmo nos darmos conta. Enquanto ajeitávamos o carro com ele em movimento, mudamos sem perceber e sem saber bem como. Nas vezes em que parei pra pensar, percebi esse novo modo de operar. Mas não dava tempo pra parar, pra consertar, pra elaborar. As urgências foram muitas e ingentes.
 
E dessa maneira, sob o signo da pressa, da velocidade, do temor, da incerteza e do afastamento, passou-se todo o impensável ano. E como sempre ocorre a cada fim do ciclo solar e início de outro, vem o momento de reflexão, de questionamento sobre o que fizemos, o que queremos fazer, mudar, manter. E é nesse ambiente que faço a reflexão exposta neste texto.  
 
Sobre esse tema, recomendo fortemente o livro do qual foi tirada a citação acima. Sociedade do Cansaço, do filósofo coreano-alemão Byung Chul Han, fala do excesso de positividade que marca a sociedade atual, que ele chama de sociedade de desempenho, na qual se oferece, voluntariamente, seu trabalho até à exaustão, em um ciclo que o agente é ao mesmo tempo algoz e vítima – de si mesmo. Diz ele: “O excesso de trabalho e desempenho agudiza-se numa autoexploração. Essa é mais eficiente que uma exploração do outro, pois caminha de mãos dadas com o sentimento de liberdade. (...) Os adoecimentos psíquicos da sociedade de desempenho são precisamente as manifestações patológicas dessa liberdade paradoxal.” E o livro segue demonstrando o cárcere psíquico que construímos para nós mesmos e a necessidade de libertação dele, mas libertação em seu sentido real, vivo: de forma a possibilitar uma expansão da expressão do ser, de suas vivências mais profundas e conexão com os outros seres vivos. 
 
É irônico ver que a primeira página, o primeiro pensamento do livro, escrito em 2010, é no sentido de que o nosso tempo não seria mais bacteriológico ou viral, mas afeito às doenças neuronais, como a depressão, TDAH, síndrome de Burnout e outros males do espírito. “Apesar do medo imenso que temos hoje de uma pandemia gripal, não vivemos numa época viral. Graças à técnica imunológica, já deixamos para trás essa época. Visto a partir da perspectiva patológica, o começo do século XXI não é definido como bacteriológico nem viral, mas neuronal.”. Quando li o livro pela primeira vez, no início de 2019, nem podia imaginar que o que parecia uma certeza diante dos avanços da medicina se revelaria tão contrário. Mas quem imaginaria, afinal, que estaríamos vivendo uma pandemia exatos 100 anos depois da última? Não obstante o contraste de má predição do futuro, reitero a recomendação dessa obra pequena em tamanho, mas profunda e importante demais para os dias atuais.
 
Também estou relendo O Ócio Criativo, do italiano Domenico de Masi, que se mostra de atordoante atualidade, passados quase 30 anos de sua edição original - 1997 e, no Brasil, no ano 2000. As reflexões agudas demonstram a profunda transformação porque passou e ainda passa o fenômeno social trabalho, especialmente com a feição que lhe é dada pela sociedade pós-industrial, sobre a qual o autor discorre com muita clareza. Diante de obra tão significativa e ampla, um comentário superficial será sempre injusto e insuficiente. Discordo, porém, de uma maneira geral, do tom otimista do autor. A realidade tem se mostrado mais sombria.   
 
O dar-se conta do aprisionamento voluntário é o primeiro passo para a libertação individual. O encontro com a cultura e a criatividade – muito valorizada também por De Masi – são apontados como fundamentais para uma efetiva fruição da vida. Byung Chul Han encerra seu livro com observações tristes porém realistas e uma exortação. Vale a pena a reflexão: “Aparentemente, temos tudo; só nos falta o essencial, a saber, o mundo. (...) Ele perdeu toda relação para com o divino, para com o sagrado, com o mistério, com o infinito, com o supremo, com o elevado. (...) Já é tempo de rompermos com essa casa mercantil. Já é hora de transformar essa casa mercantil novamente numa moradia, numa casa de festas, onde valha mesmo a pena viver.”