Cefas Carvalho

03/02/2021
 
Os restos dos olhos
 
 
De tantos horrores que tomamos conhecimento ao longo destes últimos anos em um país que se auto implode e onde, de certa forma, já parecemos estar anestesiados, por vezes acho que pouco ou nada lido no noticiário vai me chocar ou deprimir. Engano meu. O Brasil sempre nos surpreende. E para pior. Com horror, li recentemente que dois internos do Complexo Penitenciário da Papuda, em Brasilia, teriam ficado cegos após ação da polícia penal dentro do presídio. Durante tentativa dos agentes de conter uma briga no pátio da cadeia, detentos receberam tiros de borracha disparado a um metro de distância, conforme laudo e perderam completamente os globos oculares. Também tiveram ferimentos pelo corpo.
 
Repetindo: Foram alvejados com tiros de borracha nos dois olhos. A uma distância de um metro.
 
O terrível caso ocorreu em 29 de maio de 2020 e só agora veio á tona. Durante a ação policial penal, Elvis Gabriel e Elcimar Júnior Alvez Evangelista tiveram os corpos, olhos e cabeças atingidos por balas de borrachas disparadas pelos agentes que tentavam conter a briga no pátio do presídio.
 
O pior vem agora: Documentos do Hospital de Base e de clínicas apontam que os médicos responsáveis pelo atendimento dos detentos só puderam, em cirurgia, retirar “os restos” dos olhos dos pacientes.
 
Os restos dos olhos. Soa até poético. Mas é trágico. Mais que isso, é um horror imenso.
 
Segundo o portal Metrópoles, de Brasília, que fez apurada reportagem sobre o caso, desde então, as famílias tentam levar remédios para os internos, pedir uma apuração rigorosa dos fatos e que os culpados pelo que consideram “atrocidade” sejam punidos, mas dizem não receber respostas.
 
Ou seja, cegos, sem os globos oculares, ainda presos, possivelmente sem remédios e sem perspectiva de liberdade, indenização, nada. 
 
Antes que os justiceiros de plantão venham se avorar de que "bandidos merecem o que recebem", quero registrar que a matéria nem a direção do presídio divulgaram por quais crimes eles estão presos. E se for por estelionato, passar cheque sem fundo, briga de bar, não pagar pensão alimentícia? Além da detenção a pena por estes crimes - não que nenhum crime mereça isso, ainda mais pelo Estado, claro - é então a cegueira irreversível de modo cruel?
 
Por falar neste termo, o Brasil vem se mostrado cruel para com seus cidadãos. Em uma espiral de violência e, pior, sadismo. A imagem dos médicos retirando restos de olhos de seres humanos me deixou mal por uma noite. Mas o Brasil de hoje vai nos deixar mal por um longo tempo.