Ana Paula Campos

08/02/2021
 
Trago as boas novas para negres e povos ameríndios: O genocídio acabou
 
Finalmente, chegou nosso momento de paz. Somos um povo empoderado, livre e fortalecido. Ocupamos cargos de poder e decisão, conhecemos nosso legado ancestral. Nossas crianças negras e ameríndias reconhecem seu valor, e as brancas entendem que o mundo não é delas. Podemos finalmente caminhar pelas ruas sem carregar os estereótipos de ladrão ou preguiçoso. Não somos maioria nas periferias, presídios e manicômios. Nós, mulheres, não somos mais as maiores vítimas de feminicídio e violência obstétrica. Nossos terreiros de Candomblé, Jurema e Umbanda não sofrem ataques recorrentes. A fauna e flora estão devidamente protegidas. Reservas indígenas têm suas demarcações respeitadas e comunidades quilombolas crescem e vivem sob a proteção das Leis do Estado. 
 
Ufa! Que alívio! 
 
O título e o início da minha narrativa podem estar causando desconfortos. Afinal de contas, será que a colunista que vos fala ficou louca? Por que nos parece estranho esse discurso utópico, mas reproduzimos com tanta facilidade marcadores criados pelo Ocidente para nos dividir?
 
Não são poucas as vezes que vemos discussões rasas dentro dos movimentos. Perdemos nosso tempo questionando quem é preto e quem não é, duvidando da capacidade intelectual das/dos nossas/os irmãs/ãos, negando a negritude de alguns e impondo-lhes uma descendência indígena ou boicotando ações quando estas não partiram dos nossos grupos seletos das que consideramos irmãs.
 
De fato, parece que não temos questões urgentes para resolver. Parece que nossa missão primeira já não é continuarmos vivas/os. A branquitude, unida em seu “pacto narcísico”, aceita e valida seus pares. Já nós nos dividimos em subcategorias e estamos nos digladiando enquanto eles, os brancos, não precisam nem agir para nos cancelar. 
 
Chegar a ser indagada por um irmão indígena dizendo que “a Lei 10.639 está ultrapassada e não deveria ser nem mais citada já que temos a Lei 11.645” é muito triste. Primeiro porque a Lei 10.639 é um marco histórico e uma conquista fruto de anos de lutas e reinvindicações. Apagar a Lei é negligenciar todes aqueles intelectuais que lutaram e deram a vida por nós. Segundo porque a Lei 11.645 nem representa os povos ameríndios, uma vez que estes nem foram consultados para sua elaboração. Foi uma imposição de cima pra baixo, como sempre.
 
Irmãs/ãos, absolutismos, verdades únicas, cultura universal é coisa do Ocidente, não nossa. Nosso horizonte deveria ser uma perspectiva pluriversal. É fato que os povos originários do Brasil são os indígenas, mas, o que fazemos com as culturas diversas de cinco milhões de negros que vieram sequestrados para cá? Nossos mais velhos se aquilombaram para sobreviver ao processo de colonização. Esqueçam a rivalidade. Nós, negres, não somos seus inimigos. 
 
Nossas/os intelectuais já traçaram o caminho: Mãe Stella de Oxossi dialogava com o Pajé; de dentro da academia, Renato Nogueira dialoga com Antônio Bispo; a mulherista africana, Aza Njeri, dialoga com Ailton Krenak. Ninguém está negando saberes, estamos somando. Mas enquanto a leitura de alguns estiver fechada em um único nicho perspectivista, a revolução nunca acontecerá. Morreremos todes antes disso, física e epistemicamente.