Eliade Pimentel

18/02/2021
 
Danei a faca no tronco da bananeira
 
Num sábado quase comum de um não carnaval na pandemia, saio pela minha comunidade para ir à quitanda e na volta faço uma pequena pausa no comércio ao redor de casa para comprar camarão e queijo, de comerciantes que se instalaram na feirinha perto de casa. Nessas andanças, encontro um trio de amigos das antigas e os convido a ir em casa. Por um certo momento, nossas conversas giram em torno de cultivo, manejo da terra, tipos de solo, plantio de frutas, hortaliças, ou seja, sobre estilo de vida simples e saudável, temática que eu amo. 
 
Foi engraçado quando eu reclamei de umas bananeiras que não prosperaram e um dos meus amigos olha para meu quintal e enxerga um cacho maduro por trás da casa e diz: “se forem aquelas ali, estão dando certo, sim. Tem um cacho enorme e está amadurecendo”, ele alertou. E foi atrás lá para conferir. Eu olhei aquele cacho lá em cima, muito alto, e pensei que deveríamos ir buscar a escada. Só assim alcançaríamos as bananas. Mas, ele me pediu uma faca bem amolada. Até então, achei que era para cortar o cacho. Sendo que ele respondeu: “agora você vai ver como se tira banana”. 
 
E antes que eu pudesse dizer qualquer coisa ele tascou a faca amolada bem no pé do tronco da bananeira. Antes, porém, comeram cada qual uma banana madurinha que havia caído. Na minha cabeça, eu pensava: onde estava com o juízo que não me dei conta que minhas bananeiras estavam prosperando? Depois de cortada, balançaram para cá e para lá e derrubaram a gigante. Nesse meio tempo, um deles começou a cantarolar uma música que só depois identifiquei que era o forró Brincando na Fogueira, do Trio Nordestino. Ouvi vagamente um verso e achei muito curioso: “Danei a faca no tronco da bananeira. Não gostei da brincadeira, Santo Antônio me enganou”. 
 
Antes que eu morresse de curiosidade para ter a certeza de que era banana prata, uma das minhas preferidas, um dos amigos compartilhou um pedaço e eu pude sentir o gosto que estava querendo sentir. O de fruta madura caída do pé do meu quintal, lavada e remida pelo banho, pela louça e pela lavagem de roupa da bonitona aqui, pois faz um tempinho que um outro amigo fez o favor de canalizar as águas servidas da minha casa para as bananeiras que ali haviam sido plantadas por um dos meus sobrinhos, um tempão atrás. 
 
Nós temos outras bananeiras no quintal, porém, são de outra variedade, e não crescem tanto, de modo que o cacho vai alcançando o solo. Meu irmão geralmente corta o pé, após a colheita, mas eu nunca me ligava que esse era o procedimento correto do manejo. Tirar a que já deu frutos, para dar lugar aos filhotes de bananeira prosperarem. Meio que em choque, só lembrei de avisar a uma amiga que tem duas éguas para ir lá buscar a planta caída, que agora só serviria para alimento de animais ou adubo para a terra. 
E a história da bananeira me deu alguns alertas. Primeiro que é importante a gente sempre se certificar das coisas. Eu realmente passei batido. Olhava para outras, e aquelas atrás de minha casa, estavam esquecidas. Se não fosse o olhar arguto do meu amigo, babau tia chica. Teria perdido as tão esperadas bananas pratas do meu quintal. Outra coisa que pensei foi sobre aquele ditado que diz “cortar o mal pela raiz”. Fiquei pensativa, reflexiva. 
 
Tem horas que se a gente não colher, a planta morre (caso aconteceu recentemente com minha pimenteira). Minha vizinha disse que se eu colher as flores da camomila que nascem no meu jardim, elas se reproduzirão muito mais (e mais uma vez eu vejo tudo tão bonitinho e nem me toco de tirar).  Fazendo uma analogia com a nossa vida real, tem tantas coisas que se a gente não enfiar uma faca amoladinha ali no tronco, não iremos ter resultados favoráveis. A máxima vale para tudo. 
 
Relacionamento familiar ou amoroso, emprego, profissão... Até roupa velha. Se a gente não eliminar coisas desnecessárias, o que está por vir não virá. O que está velho não dará lugar ao novo. Eu realmente não sabia como funciona o ciclo das bananeiras. Depois soube que tem agricultor que a cultiva pensando na retirada do pé, pois é alimente para alguns animais. E cada dia mais fico feliz por aprender um bocadinho de coisas que fazem a diferença no meu dia a dia. 
 
E as bananas têm sido muito bem utilizadas. Com o queijo manteiga que comprei no comerciante que se instalou num carrinho com baú frio na Feirinha de Frutas de Pium, tenho feito cartola da maneira mais original, conforme descrita por Luís da Câmara Cascudo no livro História da Alimentação do Brasil. Lá, ele sugere que o lanche ou a sobremesa é a junção da banana frita na manteiga da terra, polvilhada com açúcar e canela e encerrada com queijo de manteiga. Ô delícia. Ô lá em casa. 
 
E só para encerrar, a felicidade veio completa quando uma certa pessoinha me pediu ao café da manhã certo dia: “mamãe, faz cartola”. Sim, fazer uma comidinha
extraordinariamente deliciosa, com sabor de memória afetiva com a banana madurinha que colhemos do nosso próprio quintal não tem preço. Para mim, banana frita com açúcar e canela lembra minha mãe e queijo manteiga lembra meu pai. Mistura de afeto, mistura de culturas, misto de amor, união e tradição.