Emanuela Sousa

21/02/2021
 
Carnaval e seus amores de um dia
 
 
Atravessei o tempo, a memória e os fragmentos de uma lembrança. Hoje me vi recordando fotos de alguns anos atrás, um sábado, véspera de carnaval. Era um outro tempo, bem diferente deste que vivemos agora. A cena típica em que encontrava a multidão na travessa da rua Augusta, seguindo o trio elétrico, regada a copos de bebida, barulho ao fundo, não saiu mais da minha cabeça. 
 
Milhares de glitters pelo corpo, confetes, máscaras... Folia. Eu pulava, pulava, mexia os braços no ar, seguia a multidão ao som de "Frevo Mulher", dizia que não ia parar de dançar enquanto a música não parasse.
 
Era o primeiro carnaval, a primeira ressaca, o primeiro amor de um dia que sabia que ia ser breve... Instantâneo.
 
Troquei número de telefone e redes sociais com ela naquele dia, após os beijos, dividimos o mesmo copo, falamos sobre experiência de carnavais passados... Quando pensei que aquele seria só o inicio da noite, sinto seus dedos escaparem entre os meus. De longe a assisti sendo levada pela multidão, que se encaminhava para o fim da atração. Perdemo-nos de vista... 
 
Lamentei em perdê-la. Mas não me esqueci dos olhos verdes, do cabelo, louro e rebelde solto, ao vento. 
 
Não tive muito tempo para lamentações, pois,  apesar do cansaço, meu corpo ainda estava em festa, a marchinha de carnaval agora finalizava o evento.
 
Quando nos veremos de novo? - Pergunto para a moça horas depois, por trocas de mensagens. - No próximo carnaval? Me encontre para um café, ela responde. 
 
A ressaca moral e física veio no dia seguinte. Tudo pareceu cinzento, o trio elétrico não passaria mais pela cidade, deixou apenas os restos, os confetes e milhares de garrafas vazias pelo chão, o registro que a folia havia passado por ali e ido embora de nós, com um aviso que tudo voltaria à rotina, ao monótono.
 
Marcamos o café. Eu a encontrei sentada entre as mesinhas de um café aconchegante, próximo a Avenida Paulista. 
 
Falamos sobre arte, música, pintura,  observamos as estrelas. Prometemos nos encontrar mais vezes, inclusive para conhecer a casa onde morava.
 
O tempo passou, nunca mais nos vimos. Em seguida, outro carnaval. Novamente tirei os glitters da gaveta, o colar havaiano e as expectativas para viver intensamente. 
 
E veio mais uma tarde de folia, dessa vez acompanhada de outras pessoas. Não importava com quem, eu permanecia eufórica, como se fosse o primeiro carnaval da minha vida. Outros arranjos, outras marchinhas (sei de cor). Enche o copo, mas sempre de olho no trio elétrico. Outro amor cruza o meu caminho. Trocamos números de telefone, afetos logo de cara, mas a conversa foi rápida. 
 
E chegou mais um encontro após a ressaca, mais uma noite com confidências, troca de afetos, beijos no pescoço, mãos na cintura... Mais uma promessa feita de que poderemos nos ver mais vezes, mesmo após o carnaval. 
 
Mas é tão instantâneo, que se perde no tempo.
 
Escolhi chamá-los de amores que duram um dia, pois eles não cansam, nem machucam, são breves e leves. Quando vão embora, não levam embora a alegria, mas deixam nostalgia. 
 
Cabe a cada um de nós entender e ressignificar que, se o carnaval passou, o amor também irá passar.