Ana Paula Campos

22/02/2021
 
DENTINHO SEPARADO
 
Durante a adolescência eu era super fã de Madonna e Marie Fredriksson (vocalista do Roxette). Ouvia os discos, pedia música na rádio, aprendia as letras das músicas e adorava ver repetidas vezes o filme Quem é Essa Garota? (Who's That Girl?) na Sessão da Tarde. Eu queria ser elas. Tratei de buscar alguma coisa em comum entre as duas que eu pudesse alcançar. Os dentinhos separados na parte superior da frente era mesmo um charme. 
 
Em uma das tentativas de me tornar igual, fui surpreendida pela minha mãe, que questionou o que eu fazia rodando um palito de dente. “Tô tentando separar os dentes da frente”. Mas, no fundo, o que eu queria mesmo era ser branca. Todo mundo que eu via era branco. Todo mundo que realmente importava... Xuxa, Angélica, Eliana... tinha a Mara, apresentadora “morena”, mas não fazia tanto sucesso quanto as outras. O negócio era ser branca. No fundo, eu sabia que não dava pra embranquecer. Soube anos depois que Geni, nossa premiada escritora de Leite do Peito, rasgou a batata da perna com raspa de tijolo na tentativa de embranquecimento. “Ficaram só as chagas da alma esperando”. 
 
Claro que essa lógica era inconsciente. A gente aprende logo cedo como uma sociedade racista opera e vai tentando se adaptar. E ali estava eu: FEIA! Nariz largo demais, cabelo crespo demais, distante demais de tudo considerado belo. Eu nem fazia questão de ter o olho mais azul como Pecola, personagem do livro da escritora afro-americana, Toni Morrison, mas o dentinho separado... Geni Guimarães, Toni Morrison, eu e tantas outras em busca de algo que nos aproximasse da branquitude. 
 
Eu queria ser branca. Mas não estamos falando “apenas” de estética aqui. O tema desta crônica é a violência psíquica que todes nós sofremos. Lélia Gonzales, militante do Movimento Negro Unificado, vem se reconhecer como uma mulher negra depois que o marido, homem branco, revelou que sua família não gostava dela justamente porque era preta. Neuza Santos Souza analisa 15 casos de homens e mulheres negres em seu livro, Torna-se Negro, numa tentativa de abrir nossos olhos e nos proteger das ilusões criadas pela branquitude. Mas os ferimentos provocados na nossa subjetividade são profundos. Suicídio! Frantz Fannon nem era negro. Era francês. Uma criança branca olha para ele e diz: “Mamãe, olha um negro! Estou com medo dele”. A verdade sempre nos alcança. A falácia da “raça humana” não cabe pra nós. 
 
Hoje tenho consciência racial e sigo caminhando na busca pela minha ancestralidade esquecida, mas como diria a intelectual Anin Urase, “Todos os dias quando acordo preciso matar a branca que querem que eu seja”.