Ana Paula Campos

01/03/2021
 
Vamos brincar de matar pessoas? 
 
 
Esta semana acompanhei as novas brincadeiras das redes sociais. Inúmeras empresas viram na eliminação de Karol Conká da casa do BBB uma possibilidade de ganhar dinheiro, views e seguidores. Entrei em contato com todas as empresas em que vi publicações dessa natureza e expliquei que se tratava de racismo, mas, apenas uma me respondeu e se retratou publicamente. Algumas, inclusive, chegaram a me bloquear no Instagram. 
 
Antecipando minha coluna semanal, também fiz uma postagem reiterando o racismo na referida ocasião e como era de se esperar, não faltaram pessoas atacando a sister, alegando que nada disso tinha relação com a raça ou gênero da cantora. “Poderia ter acontecido com negros e brancos”, eles disseram. Então, vamos lá.
 
Para começo de conversa, vale ressaltar que quem define se a ação foi racista ou não somos nós, pessoas negras. Isso é inegociável. Brancos, por questões óbvias, vão sempre alegar que não se trata disso. Apenas pessoas pretas sentem na pele o racismo cotidiano, ainda que muitas não saibam expressar ou mesmo tentem negar o fato. Isto posto, sigamos. 
 
Antes de sair por aí defendendo sua opinião toda pautada no senso comum, lembre-se que você enxerga tudo pelas lentes do colonialismo. Tudo que você pensa e sente, ou seja, seus valores civilizatórios, foram moldados meticulosamente por uma elite racista, eugenista, machista, capacitista e homofóbica. Para que essa elite se mantenha no poder é necessário nos fazer acreditar no “mito da democracia racial” e em falácias como “raça humana” e pensamentos do tipo: “não se trata de uma questão racial, muito menos de gênero”. 
 
Sueli Carneiro, intelectual e filósofa negra, nos revela em seu livro Escritos de uma vida, quais lugares ocupamos na sociedade. Nós, pessoas pretas, compomos a base da pirâmide social e quando analisamos considerando a questão de gênero, constatamos que as mulheres negras estão abaixo dos homens negros. Lélia Gonzales, intelectual negra e também militante do Movimento Negro Unificado (MNU), informa que mulheres negras são atravessadas por tríplice opressão: racismo, machismo e sexismo. 
 
Outro intelectual do MNU e professor da Universidade de Harvard, Abdias Nascimento, nos fala do genocídio do povo negro. Morremos várias vezes antes de nosso corpo tombar fisicamente. Sendo o racismo estrutural, temos a nossa subjetividade atacada diariamente por todos os lados. Morremos inúmeras vezes psicologicamente até não resistirmos mais. Sim, é uma questão de raça. Somos maioria nos presídios mesmo que as acusações não sejam comprovadas. Somos maioria em manicômios e nas periferias. Estamos mais propensos a morrer de diabetes e pressão alta. Somos as maiores vítimas de suicídio. 
 
Sim, é uma questão de gênero. Mulheres negras ganham menos que mulheres brancas exercendo a mesma função. Somos maioria das vítimas de feminicídio e violência obstétrica. Sofremos com a solidão da mulher negra como nos esclarece outra intelectual negra, Ana Cláudia Pacheco, uma vez que os homens, brancos e negros, acreditam que “mulher negra é para foder e branca para casar”.
 
A verdade é que aprendemos a odiar mulheres negras!
 
Quando um programa da Rede Globo, claramente racista e dirigido por homens brancos, reúne o maior número de negros da história do BBB, a intenção é uma só: desmantelar anos de luta antirracista, alimentando o ódio por pessoas pretas, deslegitimando seus discursos. Tudo isso disfarçado de “jogo”. O professor Adilson Moreira explica de maneira brilhante em seu livro Racismo Recreativo, da Coleção Feminismos Plurais, como “brincadeiras” e “piadas” operam como uma forma de genocídio à população negra. 
Somos ensinados que podemos fazer deboche e ofender as pessoas dos grupos acêntricos (conhecidas como minorias) e justificamos que não se trata de racismo ou preconceito. Da mesma forma, quando empresas postam imagens de Karol Conká com expressões “raivosas” e querem lucrar à custa da sua eliminação, trata-se de racismo, sim! É leviano se valer da situação para ganhar likes e seguidores. 
 
Ao tomar tal atitude, estas empresas estão fomentando e validando os discursos de ódio contra Karol. Sim, discursos de ódio. Basta que leiamos os comentários dos brasileiros sobre ela. Para atacá-la, passaram a usar expressões como “macaca” e a proferir comentários pejorativos sobre seu cabelo e traços negroides. E antes que venham dizer que estou “passando pano” só porque ela é negra, vale ressaltar que não concordo com nada do que ela fez e também sofri com os ataques a Lucas e ao orixá Xangô.
 
Mas, por que somos tão condescendentes quando pessoas brancas comentem racismo, pedem desculpa e alegam que “não foi a intenção”, mas, não podemos compreender que Karol Conká também foi vítima de uma sociedade racista e machista que moldou sua personalidade? Joice Berth, escritora do livro Empoderamento, também da Coleção Feminismos Plurais, diz uma frase que ilustra bem a ocasião: “Por trás de todo capitão do mato existe um senhor de engenho”. Por que não estamos atacando-o também com tanta ferocidade? Onde estão as mobilizações contra um presidente genocida que está destruindo o país ou contra a própria emissora?  
 
A filósofa negra Aza Njeri nos alerta sobre a manipulação que sofremos das grandes mídias. A elite branca coloca a foice em nossas mãos e dita quem é o vilão. Estamos nos matando e eles nem precisam sujar suas mãos para isso. 
 
Não, não é só Karol Conká que está sendo linchada psicologicamente. Seu filho desabafou nas redes sociais que sua vida “foi do céu ao inferno”. Ambos estão sendo ameaçados de morte. Enquanto escrevia a primeira versão desta crônica passei mal, fui dormir com enxaqueca e tive pesadelos. Quem colabora para este espetáculo não está matando só Karol Conká, está matando a mim e tantes negres que estão adoecendo com tanto ataque racista. Isso sem falar de décadas de luta e de produções intelectuais que estão sendo reduzidas a nada. 
 
Este talvez seja o maior texto que escrevi desde que iniciei nesta coluna, fugindo até da proposta da crônica de ser textos curtos, mas quis escrever algo didático para me contrapor aos argumentos rasos e sem embasamento teórico que vejo nas redes e isso não se faz em poucas linhas. Se você que me lê agora não leu nenhum dos intelectuais acima citados, por favor, não venha discutir comigo.
 
E, para finalizar, eu questiono: onde estavam os 99% de rejeição quando o corpo da criança Miguel tombou morto no chão? Sua fome é por justiça ou sua comoção é seletiva?