Andreia Braz

01/03/2021
 
Sobre a efemeridade da vida
 
 
Quem sabe que o tempo está fugindo descobre, subitamente, a beleza única do momento que nunca mais será.
                                                                                                                                                                        Rubem Alves
 
 
Receber uma notícia de morte é sempre algo muito difícil, e quando se trata de uma pessoa jovem, saudável, cheia de planos, é ainda mais doloroso. Não estou dizendo, com isso, que a morte de uma pessoa velha não causa impacto. Afinal, não podemos mensurar a dor da perda porque cada pessoa é única e tem seu valor para familiares, amigos, não importando em que fase da vida se encontre. A verdade é que não estamos preparados para perder os que amamos. Ela “Chega impressentida / Nunca inesperada”, diz o mestre Vinicius no belíssimo soneto intitulado “A morte”. O baque da notícia mistura-se ao sentimento de incompreensão e à dolorosa certeza da finitude. São inúmeras as perguntas e reflexões que nos assombram numa hora dessas.
 
E foi com esse sentimento de incredulidade que recebi a notícia da partida precoce de Lúcia de Fátima, amiga de infância da minha irmã Cristina e prima de duas amigas muito queridas, Ana Angélica e Ana Clara. Lúcia havia completado 33 anos no último dia 15 e foi vítima de um infarto no Recife, onde estava morando há alguns anos. Aliás, foi na capital pernambucana que realizou o sonho de se tornar psicóloga e conheceu o noivo, Rocha, com quem estava prestes a se casar. O noivado surpresa aconteceu no início do mês e o vídeo mostrando as alianças está em suas redes sociais. 
 
Há alguns dias ela fez um post no Instagram para agradecer a festa surpresa de aniversário e todas as demonstrações de carinho recebidas nas redes sociais. Agradeceu a surpresa do noivo e o apoio e acolhimento de uma amiga especial, Neide, que ela considerava “uma irmã/mãe”. Assim termina a mensagem: “[...] e o que desejo pra mim pra 2021? É que seja de mais paz, saúde, felicidade pessoal e profissional em minha vida, alegrias e que Deus me dê forças sempre pra seguir em frente e por onde passar deixar sempre o bem”.
 
É tão difícil acreditar que aquela menina tão alegre e cheia de vida partiu. E a notícia ganhou um tom ainda mais dramático porque vivemos uma pandemia que não nos não permite abraçar os amigos numa hora dessas e tentar consolá-los em sua dor inconsolável. Não há nada que possa amenizar essa dor, sabemos, mesmo assim, queremos oferecer nosso colo, nossa presença, nosso afeto. É uma forma de dizer: “Estamos juntos. Essa dor também é minha”.
 
Foi numa tarde chuvosa e melancólica que recebi a notícia de sua partida, minha querida. Uma tarde que aliás não combina com sua alegria, seu sorriso contagiante e sua vontade de viver. E é justamente isso que quero guardar na memória, essa sua alegria e seu entusiasmo. Você tinha sede de viver. Não teve medo do novo e foi em busca do seu maior sonho: cursar psicologia. Mesmo longe de sua família, você permaneceu ali, superando as dificuldades inerentes a essa nova realidade, e orgulhou a todos (e a si mesma) quando recebeu o diploma de psicóloga, em 2019. Com o apoio incondicional dos seus pais, você venceu as dificuldades e realizou seu sonho. Além disso, conquistou novos amigos e o amor da sua vida. Seus posts nas redes sociais traduzem sua alegria em viver no Recife, terra de um povo apaixonado por sua cultura; terra de Luiz Gonzaga, Ariano Suassuna, Antônio Nóbrega, Lia de Itamaracá; terra do frevo e do maracatu; terra de um povo que celebra o carnaval de uma forma única, aliás, o carnaval mais democrático do Brasil (que saudade das ladeiras de Olinda e dos shows no Recife Antigo!), e venera seus artistas; terra de um povo apaixonado pelo Sport, seu time do coração.
 
Foi tão doloroso receber aquele telefonema da minha irmã comunicando a sua partida. Com a voz trêmula, ela me disse que viu a notícia nas redes sociais e não estava conseguindo acreditar, era como se tudo não passasse de um pesadelo. Lembrei de um tempo em que vocês eram inseparáveis. Todos os dias, Cris passava na sua casa pra irem juntas à escola. Na volta, ela ainda ficava um tempo com você, adorava sua família e se sentia muito acolhida por todos de sua casa. Eram tempos difíceis aqueles e ela jamais esquece o alento que encontrava na sua amizade. Vocês estudaram juntas da quinta à oitava série em nossa amada Escola Municipal Professor Antônio Severiano, mais conhecida como “Tonhão”, da qual guardo as melhores recordações. Recordações de professores que me ensinaram o valor do conhecimento e a importância do estudo.
 
Jamais esqueceremos sua doçura, seu riso fácil e sua vontade de vencer na vida. Não posso imaginar o vazio que você deixou em sua família. Seus pais, irmãos, sobrinhos, primos, tios, devem estar inconsoláveis porque não terão mais o abraço acolhedor da moça corajosa que deixou sua terra em busca da realização profissional. Lute pelos sonhos e nunca deixe de acreditar em si mesmo. Essa foi uma das mensagens que você deixou, minha querida. Sua prima Ana Clara lembra o incentivo que recebeu de você para voltar a estudar e cursar a faculdade de Pedagogia, o que ela vai fazer assim que for possível. Ela jamais vai esquecer seus conselhos e honrará sua memória. 
 
Você era sinônimo de alegria, tranquilidade, afeto. Você partiu no melhor momento de sua vida, disse sua prima Ana Angélica, lembrando o último Natal em família e a sua felicidade nos últimos tempos, da alegria com os preparos do casamento... Aliás, ela agradece pela felicidade que Rocha lhe proporcionou no último ano e também por todo o apoio prestado no momento de sua partida.
 
 Peço a Deus que console o coração dos seus e lhes dê forças para enfrentar essa perda. Que fiquem as boas lembranças, os momentos partilhados juntos, as suas conquistas, as viagens, as festas em família, os encontros improvisados. Que fique a certeza de que você foi feliz em sua curta jornada. Afinal, como você mesma escreveu na legenda de uma foto: “Vamos viver. Temos pouco tempo”.