Ana Paula Campos

08/03/2021
 
E eu, não sou uma mulher?
 
 
 
E nós, as mulheres pretas?
Nós só serve pra você mamar na teta
Ama de leite dos brancos 
Sua vó não hesitou quando mandou a minha pro tronco. 
                             (Trechos da letra da música De dentro do AP, de Bia Ferreira).
 
 
Todos os anos por esta data circula uma história que supostamente nos informaria sobre a origem do Dia Internacional das Mulheres. Tenho quase certeza de que você ouviu falar das 129 operárias que morreram carbonizadas no dia 08 de março, de 1957. Outra narrativa, que remete a 1910, afirma que durante a II Conferência Internacional das Mulheres, em Copenhage, na Dinamarca, uma feminista marxista alemã propôs a união das trabalhadoras de todo o país, tendo como primeiro objetivo o direito ao voto.
 
A mesma história que reivindica a luta da feminista branca como sendo o marco da luta por direitos para as mulheres, esconde o fato de que muito antes disso, ainda em 1851, a intelectual Soujourner Truth, fazia uma intervenção na Women’s Rigths Convention em Akon, Ohio, nos Estados Unidos, quando homens discutiam os direitos das mulheres e ela tensionou: “E eu, não sou uma mulher?”. Um discurso poderoso que evidencia os marcadores de violência que circundam as mulheres negras. 
 
Pensar em lutas femininas por direitos leva a grande maioria a crer que as primeiras feministas foram de fato as sufragistas, que encontraram nos ideais iluministas inspirações para a luta. Ah, o Iluminismo, aquele movimento que defendia igualdade, fraternidade e solidariedade... para os/as brancos/as. Kant e Voltaire defendiam uma suposta superioridade da branquitue com qualidades que seriam adquiridas geneticamente e ausentes em pessoas negras.
 
As sufragistas estavam, na verdade, lutando por interesses dos brancos. Mas, a mídia é um espaço de disputa de narrativas. O discurso que o Ocidente valida é o que se propaga. Não estou desmerecendo a luta dessas senhoras, estou, na verdade, ressaltando que essa luta nunca foi pelas minhas ancestrais. O Ocidente, numa estratégia colonizadora, declara a Europa como o Velho Mundo e as mulheres brancas como pioneiras quando a África, berço da humanidade, é matriarcal. Tínhamos um continente inteiro com a mulher negra no centro de suas tradições culturais e sociais. 
 
Se hoje foi o dia escolhido pelo Ocidente para lembrar as lutas feministas, então, resgatemos a história de tantas mulheres negras que foram sequestradas na África e resistiram ao encarceramento e a torturas. Lembremo-nos dos quilombolas e amas de leite que buscaram estratégias, ainda que diferentes, de se manterem vivas. Lembremo-nos das quitandeiras, escravas de ganho e aquelas conhecidas como partido alto que compravam a alforria dos seus companheiros. 
 
Nossas mulheres negras, por serem poderosas, estão sendo vítimas, historicamente, do epistemicídio, genocídio e do encarceramento. Somos maioria nas estatísticas de feminicídio, nos manicômios, nos cárceres e nas favelas. Então, eu pergunto a você, feminista branca: “quando foi que cê pisou numa favela pra falar do seu Fe-mi-nis-mo?”.*
 
* (Trechos da letra da música De dentro do AP, de Bia Ferreira).