Bia Crispim

19/03/2021
 
44 anos
 
E eis que essa semana eu fiz 44 anos.
 
No dia 17 de março, mesmo dia em que, há um ano, o estado de São Paulo registrava a primeira morte por coronavírus no país e os órgãos de controle sanitário alertavam às pessoas para deixarem de circular.
 
Um ano depois, mais alertas, e agora, medidas mais intensas de restrição estão sendo tomadas. Não por conta do registro de uma morte apenas. A realidade que nos assola é muito mais devastadora, com uma média que varia entre 1500 e 3000 mortes dia. Já passamos de 260.000 vítimas fatais.
 
Fico constrangida em falar que, apesar de esta data coincidir com meu aniversário, e estarmos mergulhados nesse pesadelo, eu comemorei. Fiz uma comemoração intimista, batendo papo virtual com um amigo enquanto tomava uma cerveja e apagava uma vela sobre um micro bolo de chocolate com confetes que não pude dividir com ninguém.
 
Cantamos os parabéns, evidentemente.
 
Mas confesso que fui dormir perturbada. Sentindo-me egoísta, egocêntrica, talvez. Como eu poderia estar comemorando a vida enquanto tantos a estão perdendo?!
 
E então, antes de ir pra cama, fui fazer minhas orações noturnas (sim, eu faço orações diurnas e noturnas todos os dias). Chorei enquanto orava e percebi que meu choro não vinha somente do sentimento de dor e perda pelo qual muitos de nós temos passado e vivenciado, mas também da alegria e gratidão de estar viva, completando mais um ano, de ter toda a minha família resguardada, meus pais vacinados...
 
E no final da noite, já na cama, com as luzes apagadas e ouvindo o ronronado dos meus filhos felinos que dormem comigo, me dei conta de que, num momento tão sombrio quanto esse que estamos vivendo, eu não deveria ter vergonha ou me constranger em celebrar a vida.
 
Agora, mais que nunca, celebrar a vida é mais importante que tudo. É necessário para nós, os sobreviventes desse caos, para que possamos enxergar luz no meio dessas trevas, para que possamos reverberar esperança diante de tanta dor... Para que possamos refletir e nos reinventar como humanidade, aprendendo a valorizar mais a vida nossa de cada dia, de cada um. (Não sei se isso é uma possibilidade ou apenas um desejo utópico meu!)
 
Mas gostaria, imensamente, que fosse uma possibilidade de humanização.
 
A todas as pessoas que perderam alguém, deixo meu abraço e minha solidariedade, minhas orações e meu desejo de resiliência e paz interior.
 
A todas as pessoas que estão bem, que sobreviveram (e sobrevivem) até agora dessa tragédia (que parece longe ainda de acabar) deixo meu pedido de cuidado, consigo e com o outro. Deixo meu desejo de dias melhores e menos doloridos. Deixo meu carinho e a alegria da celebração pelas vidas de cada um.
 
Espero que em 17 de março de 2022, estejamos vivendo tempos melhores e que tenhamos aprendido muito; que tenhamos amadurecido; que tenhamos nos reinventado como uma humanidade mais respeitosa, mais fraterna.
 
Que nessa data eu possa aglomerar com meus amigos e que meu bolo de chocolate não seja mini, e sim, que tenha três andares e que a festa possa durar três dias, afinal de contas preciso comemorar por três aniversários. 
 
E eis que essa semana eu fiz 44 anos. 
 
(Grande façanha para uma travesti vivendo: a) em meio a uma pandemia; b) tendo comorbidade; c) e em um país que mata tantos de tantas formas).