Ana Paula Campos

22/03/2021
 
Não consigo respirar
 
Na coluna da semana passada escrevi em breves linhas sobre a experiência de estar lutando pela minha sobrevivência, visto que eu estava há alguns dias com COVID-19. Passado os temores e as dores, gostaria de retomar o assunto, mas, desta vez, relatando minha experiência com o sistema de saúde privado durante este processo. Não estou me colocando na condição de centro, nem tampouco falo em dados estatísticos nesta crônica, apesar de sabermos que estamos falando sobre a realidade da maioria das pessoas negras que muitas vezes não se dá conta da violência a qual é submetida e naturaliza tais agressões. 
 
Desde o início dos sintomas fui tomada por um pavor só de pensar na possibilidade de ir ao hospital. Segurei enquanto pude a realização do teste e só fui quando estava com falta de ar. No fundo, eu sabia o que me esperava. Fui levada por meu companheiro a um hospital particular da cidade do Natal. Minha irmã, que levando um lençol, nos encontrou na recepção 
 
 Já na recepção fui prontamente atendida em razão da falta de ar e fui levada em uma cadeira de rodas para a SALA ROXA (casos críticos). Ficamos eu e o maqueiro parados na porta da sala enquanto ele gritava para as enfermeiras, todas brancas e loiras, que se tratava de um caso grave. Fomos ignorados por alguns minutos. Nem preciso dizer que minutos em casos assim colocam vidas a perder. Pelo que consegui ouvir, elas conversavam amenidades. Após mais dois gritos do rapaz, pedindo urgência, elas se viraram e disseram simplesmente: “coloque ela ali”, apontando para uma cama embaixo de um ar condicionado. Como fui largada sem recursos e o frio estava muito grande por causa da febre, recorri ao lençol que minha irmã levou. 
 
Para o meu alívio, sou recebida por um médico preto, jovem, tatuado e com alargador na orelha. Estava a salvo! Estava? O médico me atendeu de forma humanizada, fez uns testes respiratórios e os exames necessários. Deitada, medicada, e mais tranquila, fiquei observando que as coisas não eram tão simples para ele também. Afinal, o que um jovem preto sabe de ciência? Aprendemos que a ciência crível foi elaborada e é exercida por homens, mas, por homens brancos. Não importa que a medicina tenha surgido em África, aqueles profissionais da saúde não têm essa informação (ou nem querem saber). 
 
Quatro horas depois, sendo completamente ignorada, percebo que as demais pacientes da sala, brancas e loiras (pacientes pretes não são maioria em hospitais particulares), pelo que vi, recebiam atenção e cuidados, bem como frases de conforto do tipo: “Fique tranquila, vai passar”. Eu seguia abandonada à própria sorte. 
 
Eu tomei café por volta das nove horas da manhã e já eram nove horas da noite e eu ainda estava sem comer nada. Aproveitei o momento em que a enfermeira colocava o soro no meu braço, de forma rude, e informei:
 
— Estou com fome. 
— O jantar não está incluso! Paga!
— Meu companheiro está lá fora. Ele paga!
— Mas aqui não entra refeição.
 
Ué, então, se a questão não era o valor da refeição, mas sim o isolamento do quarto, por que fui informada primeiramente do PREÇO? Afinal, pretas não podem pagar, não é mesmo?
 
Quatro horas depois eu só queria ir para casa. Ficar alí estava me adoecendo mais ainda. Chamo por uma enfermeira branca e loira que estava no computador à minha frente. Uma, duas, três...cinco vezes sem retorno algum. Grito. Ela, sem olhar para mim, informa a outra enfermeira que estou chamando por alguém. Ao terminar a ministração de soro recebida, eu salto da cama e saio sem olhar para trás. Sozinha!
 
O que acabamos de ler é uma prova de que VIDAS NEGRAS NÃO IMPORTAM! Não importa nossa condição social, nem a profissão que exercemos. Para a maioria dos profissionais brancos da saúde não passamos de “negrinhos que não merecem cuidados”. O Pior é que muitas vezes naturalizamos essa violência e acreditamos que a enfermeira é “chata” ou está num mau dia. Nem sei precisar quantas vezes já fui atendida da mesma forma, mas, hoje eu sei o motivo. 
 
Pagamos um plano de saúde caríssimo na esperança de sermos melhor atendidos, mas, infelizmente, dinheiro não compra sensibilidade e humanização. 
 
Enquanto escrevo, um grande número de pessoas está morrendo neste exato momento simplesmente por um mau procedimento no momento da intubação. Fico me perguntando: quantas serão negras?