Bia Crispim

26/03/2021
 
Carta a Clarice
 
Parelhas, 10 de maio de 2020
 
Cara Clarice, 
 
Primeiramente, desculpe minha audácia e minha cara de pau de me achar no direito de vir perturbá-la no seu descanso. Mas não seria possível que eu escrevesse essa carta pra ninguém mais que você. Afinal, se estou escrevendo agora, você é a culpada.
 
Mesmo sabendo que você não irá me responder, (não por que você esteja morta, mas por que sei do quão pouco você gostaria de fazê-lo) ficaria muito feliz de trocar algumas palavras, aliás, questionar algumas coisas acerca de uma série de inquietações que seu livro “Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres”, seu narrador e suas personagens Lóri e Ulisses deixaram em mim.
 
Quero começar com um trecho em que Ulisses diz que “Escrever sem estilo é o máximo que, quem escreve, chega a desejar.” Sempre achei que, quem escreve procurava criar ou se adaptar a um estilo pré-estabelecido. Desculpe, sou uma escritora em estado de autodescoberta, nem sei bem se sou escritora de fato. 
 
Venho escrevendo coisas, algumas ficções, uma coluna para o Jornal Potiguar Notícias com textos variados e também escrevo poesia, muita poesia. (A pandemia vem me causando insônia, o que me deixa horas ociosas, as quais eu preencho escrevendo e, assim como Ulisses, “faço poesia não porque seja poeta mas para exercitar minha alma, é o exercício mais profundo do homem”. Acredito mesmo nisso!)
 
E é justamente a partir desse não saber se se é escritora ou não, se se é poeta ou não, que seu livro me deu um nó na cabeça, me inquietou a existência, me embrulhou o estômago (não por que ele seja nojento, nada disso, mas pelo fato de eu não ter conseguido digeri-lo, no tocante a sua densidade e a tudo aquilo que ele carrega , apresenta e nos faz pensar. Nem sei se essa era sua intenção!) e me jogou num labirinto existencial, para além do “se saber escritora ou poeta”, principalmente agora em que estamos no meio de uma pandemia, estando, eu, há quase 90 dias isolada, sem ver minha família e meus amigos.
 
Seu narrador diz que “havia um sentido secreto das coisas da vida” e que “A mais premente necessidade de um ser humano era tornar-se um ser humano.” Um sentido secreto? Será que há mesmo? E se há, por que razão nós não ficamos sabendo? Será que ser escritora, poeta é um sentido que podemos dar a nossas vidas? E quanto a sermos humanos? Bem, nessa situação em que estamos, estou começando a entender que realmente falta muito até nos tornarmos esses tais seres humanos. Temos essa urgente necessidade de humanidade. Eis uma verdade!
 
Mas precisamos concordar em um ponto: há muita gente que já conseguiu atingir esse grau de humanização tão necessário. Vemos essas pessoas todos os dias, com os mais simples gestos de amor e caridade e solidariedade para com o outro. Acho que humanidade é sinônimo de empatia, de amar o próximo. “...eu gosto de ver as pessoas sendo”, diz Lóri, em um momento em que ela é questionada por Ulisses por que olha as pessoas demoradamente, e eu, assim como Lóri, também gosto de ver as pessoas sendo, principalmente sendo humanas, empáticas.
 
Como isso me fez passar a noite toda pesando na importância de se olhar para o outro. E de como fazemos esse exercício tão raramente. Daí eu ter chamado de empatia, daí eu achar que é isso é que é se humanizar, sabe?! (Acho que você concordaria comigo nesse ponto!) E como me fez pensar sobre eu ser escritora ou não e que sentido tudo isso teria na minha humanização. O mestre Antônio Cândido diz que a literatura humaniza. Começo a crer que ele está certo.
 
Porque é através da escrita, da poesia e da Literatura que estou conseguindo atingir esse grau de reflexão sobre “ser”, sobre “ser humano” e sobre esse “sentido secreto” dos quais o livro fala e que nós precisamos ir descobrindo e aplicando em nossas vidas. Acho que isso é aprender a viver, apesar de não sabermos viver, assim como a personagem Lóri. (Viver é um livro de aprendizagens, não é mesmo?!)
 
Tenho a impressão que essa carta, na verdade, não passa de um monte de ideias atropeladas que gostaria de compartilhar com alguém, e por não ter encontrado ninguém com quem conversar sobre seu livro e sobre o que ele me despertou, então resolvi endereça-la a você. Mesmo sabendo que você não falaria sobre seus livros...
 
Enfim, nesse estado de reclusão, de isolamento em que estou e tendo acabado de fazer a leitura desse livro, deixo uma pergunta que, infelizmente sei que não terei a resposta, porque, provavelmente nem você a teria. Pergunta feita por Ulisses a Lóri no final desse romance de muitas perguntas, de muitas inquietações e poucas respostas ou soluções. Pergunta que traduz o estado de solidão em que me encontro, meu grau de humanização e de aprendizagem dessa vida de meu Deus: “– Amor será dar de presente um ao outro a própria solidão?” 
 
Clarice, por fim, obrigada por ter me dado esse presente de reflexão, por esse livro de aprendizagens, pelos prazeres tão humanos que me sacudiram através de sua escritura. Sim, espero escrever “sem estilo” como disse Ulisses. (Já que eu estou nesse processo de tornar-me, vai que esse seja esse o meu estilo!)
 
Com afeto, da escritora/poeta e humana em construção e sua humilde leitora, 
Bia Crispim de Almeida.