Ana Paula Campos

29/03/2021
 
 
Por que eu não nasci pretinha igual a você?
 
 
Essa foi a pergunta que minha filha branca, Giovana Maria, fez: “por que eu não nasci pretinha igual a você e nasci branca igual a papai?”.
 
A pergunta da minha filha vem carregada de muitos significados. Sabemos que pessoas brancas, assim que nascem, compreendem que o mundo é delas. Para todo lugar que olham se sentem representadas de forma positiva e potente. Pessoas brancas gostam de ser brancas. Ao contrário de pessoas negras, que desde muito cedo entendem como a sociedade racista opera no sentido de minar a nossa subjetividade. Somos apresentados em filmes, novelas e na literatura de maneira pejorativa e jocosa, reforçando a imagem de que somos sujos, perigosos ou, no caso da mulher negra, a “mulata gostosa”.
 
Então, por que minha filha não sente prazer em ser branca e deseja ter nascido negra? A resposta para esta pergunta está diretamente ligada à minha consciência racial. Desde o momento que me tornei uma mulher negra, passei a ler muito sobre o assunto e a viver de uma maneira afrocentrada. Tudo na minha casa, desde a decoração até as práticas do cotidiano, estão relacionadas à África. Depois de me assistir ministrar várias aulas e participar de muitas lives, minha filha ressignificou sua concepção sobre o continente. Hoje, ela, além de reconhecer minha herança ancestral real, tem a possibilidade de viver de perto tudo isso. 
 
Então, eu retorno a pergunta que deu título a esta crônica, trazendo uma nova questão: por que minha filha não quer mais ser branca? Várias pessoas brancas que têm algum membro negro na família estão neste momento se fazendo a mesma pergunta e dizendo nas redes sociais que são brancas, mas que têm sangue negro porque o avô é negro. Essas pessoas sofrem do que chamamos de “vergonha branca”. Elas estão no grupo que lê literatura negro-brasileira e livros escritos por pessoas negras que discutem o racismo e, dessa forma, estão tomando consciência do seu legado ancestral diretamente ligado ao fardo do colonizador que sempre foi – e ainda é –  matar, expropriar e roubar.
Para estas pessoas, ser branco já não é sinônimo de descendência nobre e benevolente. Para que esta percepção aconteça é preciso que haja o reconhecimento de que a África é o berço da Humanidade e de muitas descobertas científicas que revolucionaram a vida humana. É preciso  reconhecer a descendência real de africanos em diáspora e não apenas o nosso passado na condição imposta de escravizados. 
 
A fala da minha filha também diz muito sobre a importância de educarmos nossas crianças, apresentando nossa verdadeira história e não apenas a narrativa contada pelos brancos. É fundamental que as escolas e as famílias ressignifiquem o que está posto nos livros didáticos e literários. Crianças negras precisam saber que são bonitas e conhecer seu legado de luta, poder e resistência. As crianças brancas também precisam saber disso, afinal, quem está reproduzindo e reforçando as práticas racistas são pessoas brancas.
Giovana hoje olha para mim, vê uma rainha e reivindica seu lugar: “eu sei que você é famosa, mas você é minha mãe”. Isso significa dizer que todes que amam a África não vão mais reproduzir o racismo? Claro que não. Não subestimemos o poder do racismo estrutural na formação da nossa subjetividade coletiva.  Mas sim, isso revela que estamos caminhando para um futuro de mudanças significativas.
 
Esse reconhecimento por parte de pessoas brancas é fundamental. Sentir vergonha do seu legado de opressão também, mas, precisamos ir além. Não basta admirar o povo preto e nossas culturas. É preciso que pessoas brancas se unam à luta antirracista e ajudem a mudar de forma efetiva a estrutura racista do nosso país.