Bia Crispim

09/04/2021
 
Um “travequeiro” bateu em minha porta
 
E eis que um travequeiro bateu em minha porta, e, logicamente, eu NÃO abri.
 
Provavelmente você está querendo saber o que é um “travequeiro”, pois bem, segundo o Dicionário Informal da internet (www.dicionarioinformal.com.br) esse “termo ofensivo” é “usado pela comunidade Trans para designar um homem cisgênero com fetiche em, ou ainda, obsessão por, relacionar-se sexualmente com travestis e mulheres transexuais.”
- “Um amante?! E por que você não abriu?” – acredito que esse tipo de questionamento possa estar passando na sua mente nesse momento. 
 
Inicialmente, queria que você prestasse atenção que o termo “travequeiro” não significa “amante” num sentindo positivo que essa palavra possa ter. Veja que usamos esse termo de forma pejorativa. 
 
Pois bem, vou te contar uma história pra ver se fica claro o porquê de minha rejeição aos amantes/“travequeiros” tenha acontecido.
 
Estou separada há mais de um ano e vocês sabem como essas notícias se espalham rapidamente, pois bem. Poucos meses após minha separação alguns rapazes (a maioria desconhecidos, diga-se de passagem) apareceram nas minhas redes sociais com “ois”, “queria te conhecer”, “vc é linda”, “nunca fiquei com uma Trans, mas tenho curiosidade”... enfim, papo de travequeiro, cheio de charmes e “más” intenções. 
 
Sou raposa velha e já não me deixo iludir por esses seres carentes e curiosos que gostariam de ter uma “aventura” amorosa com uma mulher Trans/Travesti. Até porque tenho amor a minha vida para me permitir, nesse Brasil transfóbico de meu Deus, um envolvimento qualquer com aparições de internet.
 
Seus discursos mascaradamente amorosos, elogiosos e cheios de apetites sexuais sempre acompanham o discurso da discrição, “porque eu sou casado, sabe!”, “tenho namorada”, “se meus amigos ficarem sabendo, vão tirar a maior onda”, “ eu só queria saber como é, e confio em você porque você é discreta”... 
 
Pois bem, NÃO abri e NÃO abrirei a porta para nenhum de vocês, travequeiros!
 
Sabe por quê? Primeiramente, por que amo demais a pessoa que sou!
 
Segundo, por que não quero legitimar meu corpo como brinquedinho para satisfazer curiosidades ou fetiches de quem quer que seja.
 
Terceiro, por que não vou me envolver afetiva ou sexualmente com ninguém que esteja mal resolvido com sua vida sexual, com sua identidade, com suas performances, com suas amantes...
 
Quarto, por que não vou ajudar a legitimar a ideia de que meu corpo só serve para sexo e descarte. Que não sou capaz de amar e ser amada e ter uma relação duradoura como é comum acontecer com muitas pessoas cisgêneras. 
 
Quinto, por que se você tem vergonha de se envolver aberta e publicamente com uma mulher Trans/Travesti, você não tem “colhões” para ser um homem a altura de uma mulher dessas.
 
Sexto, por que eu não vou ajudar a alimentar a ideia de nossos corpos como produto do mercado da pornografia, da prostituição e da objetificação que existe por trás do discurso, do desejo e das ações desses travequeiros, os quais são os maiores responsáveis por termos essa comercialização tão lucrativa da exploração dos nossos corpos. Comercialização lucrativa da qual não somos nós que lucramos. Que isso fique bem claro!
 
Por fim, sétimo (que é um número exotérico), por que toda mulher Trans/Travesti não precisa se subjugar a esses amores de quinta categoria, a essa sensação pela metade de sentimentos tão grandiosos, a essas experiências de clandestinidade de seus sentimentos e sensações mais íntimos. Toda mulher Trans/Travesti tem o direito de desenvolver-se afetivamente através de relacionamentos afetivos e amorosos, e não somente sexuais. 
 
Quer meu SIM? Quer que a porta se abra? 
 
Mande-me flores, leve-me para jantar, apresente-me a sua família em um almoço de domingo, aos seus amigos num happy-hour após o trabalho, assuma que me quer porque me deseja e me acha massa e quer que eu seja sua companheira, não só na cama de um motel de beira de estrada!