Ana Paula Campos

19/04/2021
 
Os povos indígenas para além do dia 19 de abril
 
Leia com atenção a seguinte mensagem recebida este final de semana: “Diante de uma data muito importante que é o dia 19, gostaria de saber, se podemos fazer uma chamada do Google Meet na segunda, para que as crianças da escola que trabalho possam ter um contato maior com a cultura indígena.” Estamos em 2021 e infelizmente é assim que os profissionais da educação lidam com um assunto tão importante. Sabemos que não e trata de um caso isolado. Pensando nisso, hoje convido o intelectual Fabio de Oliveira para tratar do assunto. Boa leitura.
 
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A figura humana nua usando cocar, segurando um tacape ou arco e flecha, morando na oca chefiada pelo seu cacique, plantando e comendo mandioca. Um ser selvagem que vive “preguiçosamente” na rede, em aldeias isoladas à beira de rios. Esta é a visão deformada que educadores têm dos povos indígenas e que é apresentada nos livros didáticos ao ensinarem sobre o “descobrimento do Brasil”. Nada além, nada justo.
 
O dia 19 de abril, considerado o Dia do Índio, está mais para uma data folclórica na qual se fomenta ainda mais o preconceito através da reprodução de estereótipos sobre os povos indígenas. É comum ver professores em suas escolas pintando, ainda, o rosto dos seus alunes e confeccionando cocares de cartolina e fazendo a “dança da chuva”. Isso também é uma forma de engessar e limitar as culturas indígenas, esquecendo sua diversidade como se essa fosse a única configuração existente de nossos povos.
 
Em paralelo a isso, a mídia reproduz esses estereótipos como vimos em novelas como Uga Uga, apresentando um “índio” branco e loiro, em desenhos infantis como Pica-Pau, sendo ele violento, programas de auditório como Show da Xuxa e filmes Western. Até revistas em quadrinho como A turma da Mônica, apresentam a imagem homogênea de um indígena de tanga com cabelo cortado em “cuia”, como se em todas as etnias existentes, fôssemos uma coisa só. Além disso, para uma mente colonizada, não somos mais indígenas se utilizarmos tecnologias, roupas, morarmos em casas, apartamentos ou até mesmo vivermos em situação de rua. 
 
Não podemos esquecer também da academia e de coletivos que, percebendo os povos indígenas como seres “exóticos”, acabam por ocupar nossos espaços e vozes, transformando nossos povos em objetos de estudos para autopromoção. Encobertos de supostas boas intenções, mas que não geram retorno e benefícios para as comunidades indígenas. De nada adianta esses grupos se armarem de diálogos decoloniais se, na prática, acabam agindo igual ao colonizador: apropriando-se do que não é seu em benefício próprio.
 
Há uma insistência em reproduzir a imagem quinhentista dos povos originários e cobram tais características para validarem a afirmação étnica destes, mas não sabem, por exemplo, que Marquês de Pombal proibiu a construção de ocas, implantou a língua que falamos hoje, aniquilando a família da língua Tupi. Há aproximadamente cerca de 200 línguas indígenas atualmente, uma discrepância gigante se comparado a antes da invasão europeia que eram mais de 1500 línguas. Há muitos termos que foram herdados por nós que são utilizados em nosso cotidiano, mas maioria das pessoas não sabe nem procura saber a origem como: Itapetinga, Anhaguera, Ipirapuera, Caatinga, Chaboque, Nhênhênhê, Igapó, Pirangi e, dentre outros, Potiguar. 
 
Que autoridade estas pessoas acham que têm para cobrar que nos comportemos como os índios do passado, depois de todas as invasões, sangue derramado, terras tomadas, etnocídios e escravismo em prol de uma nação progressista e desenvolvida aos moldes eurocentristas? Que progresso e desenvolvimento é esse que sai exterminando tudo e todes de cima para baixo? Tudo isso nada mais é que um agendamento político de extermínio perverso, um ataque sistemático que vem desde a época da invasão europeia, que tem compromisso com a retirada de direitos indígenas e que só alimenta o preconceito e a inferiorização social.
 
Os povos indígenas são diversos, então usemos sempre no plural esse termo para reforçar que não existe “a cultura indígena” e sim “as culturas indígenas”.  Quando usamos no singular, estamos tratando como uma cultura homogênea sem especificidades. Os povos indígenas do RN, CE, PE, SP, MT, AM dentre outros estados, têm suas peculiaridades e são distintos entre si, além de virem se articulando politicamente, resistindo e lutando pelos seus direitos à saúde e educação diferenciadas, e pela demarcação de terras com um esforço gigante; mesmo diante das conjunturas políticas que cada vez mais vem querendo acabar com nossa existência.
 
Durante décadas os povos indígenas do RN foram invisibilizados e deslegitimados pelas narrativas dos pseudointelectuais potiguares. Segundo eles, até 2005 não havia povos indígenas no nosso estado. Após audiências, mobilizações e articulações dos Caboclos de Assu, Potiguaras do Catu, Potiguaras de Mendonça, exigindo políticas públicas diferenciadas, outras comunidades afirmaram sua identidade étnica. Atualmente o RN tem 14 comunidades/aldeias indígenas compostas pelos povos Potiguara de Mendonça, Potiguara de Catu, Potiguara de Sagi, Caboclos de Assu, Tapuias (Tarairiú e Paiacu) e Warao.
 
Os povos indígenas do RN têm se articulado para tensionar demandas e ações trabalhando para garantir compreensão e respeito pela nossa diversidade cultural, por visibilidade e reconhecimento de nossos direitos. Para tanto, vemos cada vez mais nossos parentes fazerem uso de recursos audiovisuais e redes sociais para externarem suas reivindicações e culturas. É importante destacar que são conteúdos produzidos por conta própria, sem intervenções brancas.
 
As culturas indígenas estão presentes na nossa culinária, ciência, costumes e língua. Nada foi construído sem os conhecimentos indígenas e isso é inegável. Façamos um esforço para debater e nos alertar sobre essas questões a fim de desconstruir esses estereótipos e arquétipos. A Lei 11645/08, referente à obrigatoriedade da inclusão no currículo escolar das temáticas indígenas e de matriz africana, está aí e não a vemos sendo efetivada como deveria. Que todes, mas principalmente educadores, procurem conhecer mais sobre nossos povos para apoiar, fortalecer e disseminar nossas lutas e não mais contribuir para um epistemicídio indígena.
 
Saiba mais sobre os Movimentos Indígenas do RN: @indigenasdorn
 
Fábio de Oliveira, indígena da etnia Tapuia, nascido em Natal/RN é graduado em bacharelado no curso de Audiovisual da UFRN. Atua na direção de fotografia, videomaker, sendo editor e roteirista na Odara Produtora, além de coordenador de comunicação do Sítio Histórico e Ecológico Gamboa do Jaguaribe, diretor do projeto do podcast Ecos do Jaguaribe.