Cefas Carvalho

21/04/2021
 
 
Tiradentes reenforcado e reesquartejado
 
 
"O Cristo recrucificado" é o título de um dos meus livros preferidos, romance do grego Nikos Kazantzakis (o mesmo de "Zorba, o grego" e "A última tentação de Cristo") que fala de uma montagem amadora da Paixão de Cristo numa aldeia grega, até que o pastor que interpreta Jesus começa a ter comportamento parecido demais com o do Cristo, o que incomoda aos patrocinadores do espetáculo e gera consequências.
 
Essa premissa vem sendo bastante registrada atualmente. A de que se Jesus Cristo voltasse hoje seria implacavelmente condenado e crucificado novamente pelos pastores vendilhões do templo, padres que pregam o ódio e igrejas cujos fiéis fazem arminha com a mão. 
 
Neste dia 21, quando se celebra a luta e a morte de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, podemos afirmar sem medo de errar que, nos dias atuais e militando pelas mesmas causas, ele seria reenforcado e reesquartejado pelas mesmas pessoas que celebram sua memória.
 
Joaquim José queria um país livre e independente. O desgoverno atual e sua militância fanática defendem um país sabujo dos EUA (principalmente com o presidente anterior, Donald Trump). 
 
Tiradentes lutou por um país para o futuro, um país que não fosse mais colônia. Atualmente o presidente e boa parte dos políticos e militares parecem satisfeitos com o papel de vassalos e de párias internacionais, ainda que destilando uma arrogância medrosa. 
 
Na verdade, há alguns anos estamos voltando para os conceitos de país colônia. Tanto que entre o bolsonarismo e o desgoverno federal muita gente despreza as lutas antiracistas, com indisfarçado fascínio pelo tempo da escravidão, e tem horror á equidade entre sexos e gêneros, saudosos talvez daquele país colonial onde mulheres eram cidadãs de segunda classe, mulheres negras e índias sequer cidadãs eram.
 
Portanto, os cidadãos de bem hoje, dia 21, estão curtindo as praias - desafiando os decretos e protocolos anti-Covid - ou churrascos em casas de praia. Celebrando o feriado de Tiradentes. Mas, repito: Eles todos reenforcariam e reesquartejariam Tiradentes novamente, se pudessem, assim como a qualquer um que ousasse falar em liberdade e igualdade. Onde já se viu?