Ana Paula Campos

28/04/2021
 
Entre a cruz e o machado: Crianças tem escolha?
 
Venho de uma família paterna fortemente ligada ao Cristianismo. Cresci tão imersa nesse contexto, que passei por todos os rituais sem questionar: batismo, 1ª comunhão, crisma e grupos de jovens, além de estudar em escolas privadas católicas. Quando minha filha nasceu, a consagrei à Nossa Senhora ainda na minha barriga e ao nascer foi batizada na igreja católica porque esse era o meu normal. Todos os domingos e datas festivas, como Dia dos Pais, Dia das Mães, Natal e Ano Novo, lá estávamos todes nós, com nossas melhores roupas ouvindo as “palavras da salvação”, sem questionar. 
 
Anos depois, embarco em um relacionamento tóxico com um sujeito evangélico e novamente lá fomos nós, ouvir “as palavras da salvação”, mas em outro contexto. Lembro de ouvir atenta ao discurso, olhar em volta e, intuitivamente, pensar que nada daquilo fazia sentido para mim. Minha filha ficava no andar de cima com outras crianças. Um dia, ela que sempre teve liberdade de me contar qualquer coisa, confidenciou que não estava feliz naquele lugar. Que nada daquilo fazia sentido para ela também. Choramos abraçadas de alívio e decidimos juntas: não iríamos mais!
 
Tempos depois, me reconheço como uma mulher negra afrocentrada e, apesar de me declarar agnóstica na época, fui tomada pela força dos tambores do terreiro. Dessa vez não levei minha filha. Queria que dessa vez ela tivesse liberdade de escolher quais caminhos seguir. Mas então eu pergunto: nosses filhes tem mesmo liberdade de escolha religiosa? 
Lembrei de um texto bastante coerente e lúcido do Babá Sidney Nogueira, autor da obra Intolerância Religiosa, da Coleção Feminismos Plurais. Babá esclarece que todes nós crescemos em uma sociedade cujos pilares civilizatórios são judaico-cristão e branco. Essa é considerada a verdade única e universal. Seguimos um calendário cristão,
comemoramos datas cristãs, batizamos nosses filhes assim que nascem nas igrejas cristãs sem questionamento, mas quando uma família decide fazer o santo da sua cria ainda bebê é duramente criticada porque, segundo afirmam, “a criança não tem discernimento de saber o que quer”.
 
Alguns ainda, defendendo uma postura “democrática” dizem que não vão encaminhar seus filhes nesta ou naquela religião. A escolha será deles/as futuramente, mas que escolhas elas têm se o mundo condena tudo que não seja branco e cristão? se a ideia de retidão e virtude está ligada unicamente às religiões cristãs.
 
Quando optei por não encaminhar minha filha na Jurema e no Candomblé eu estava deixando que o Estado decidisse por ela. Tudo já está posto. Continuo defendendo que a escolha sempre será dela, mas dessa vez, ela ao menos terá a experiência advinda da vivência no terreiro, e não pautará sua decisão com base em narrativas racistas de quem desconhece nossa crença e nos vê pelas lentes do colonialismo.