Fabio de Oliveira

03/05/2021
 
Em nome do meu deus, eu destruo. Eu ouvi um amém?
 
 
 
Esses dias, li noticiários acerca de uma comunidade que em legítima defesa do seu território e cultura, impediu, com as próprias mãos, mais uma tentativa de apagamento do seu povo. Esse ato de resistência e força nos tomam de orgulho e emoção. Contudo, o que me chamou atenção, a princípio, foi que em pleno século XXI, diante de tantas informações, as mídias, sejam elas de pequeno ou grande porte, continuam insistindo em pôr os nossos povos ainda como “bárbaros” em diversas manchetes: “Indígenas destroem templo da Assembleia de Deus”; “Índios destroem templo da Assembleia de Deus e motivos deixa fiéis em choque”. Manchetes como essas acabam por reforçar estereótipos do “índio selvagem e violento”.
 
            O caso em questão ocorreu especificamente no dia 24 de abril, na Ilha de Assunção, no município de Cabrobó, no Estado de Pernambuco, onde (re)existem e lutam os indígenas da etnia Truká. Assim como os demais povos da nossa Pindorama, eles têm seus próprios costumes, crenças e forma de (re)existir. Porém, foram desrespeitados pela construção de uma igreja em seu território, sem autorização das lideranças indígenas – isso não tem nada a ver com intolerância religiosa – e pelo pastor Jabson, da Assembleia de Deus, que falou: “o espírito de luz dele [liderança indígena] não está descendo e não desce mesmo, não. Acho que cortaram a energia dele lá [risos]. O maior é o que está conosco”.
 
            Lembrando que, assim como tantos outros povos indígenas, o povo Truká vem sofrendo as mais variadas investidas contra a sua comunidade ao longo de décadas. Já vimos esse episódio antes, não é mesmo? Nada de novo no front. É mais um episódio dessa perversa realidade contra os nossos povos.
 
            Missionários evangélicos até aprendem a pilotar aviões para invadir os territórios indígenas, no intuito de apresentar o deus deles e evangelizar os nossos povos, desconsiderando as nossas crenças, alegando, inclusive, que não tínhamos alma, como foi declarado pela Igreja Católica, durante o processo de colonização.
 
Essas investidas estão interligadas a interesses econômicos como a expansão do agronegócio e da mineração, das boiadas e das grilagens, fechando um pacote sistêmico e destrutivo. São variadas as formas de violência; elas vão desde o desrespeito às nossas tradições e subjetividades, à violação do direito às terras e à negação do acesso à saúde e educação, culminando no derramamento de sangue indígena.
 
Os povos indígenas têm suas organizações sociais, costumes, ciências e diversidades culturais. Nosso distanciamento do modelo eurocêntrico hegemônico não autoriza toda essa violência por parte de religiosos cristãos contra o nosso povo.
 
            Deixo aqui uma provocação e reflexão aos leitores, a partir de uma realidade: vocês já viram algum indígena agir de maneira violenta contra outras civilizações, ainda mais no intuito de impor a nossa fé?