Evandro Borges

30/04/2021
 
 
O livro ´O ar que me falta` de autoria de Luiz Schwarcz
 
O leitor assíduo da minha geração gosta de visitar as livrarias, cada vez mais escassas pelo avanço dos livros eletrônicos e com o domínio da internet  que tornou o acesso praticamente gratuito, pois, mais uma vez visitei a Távola Livraria situado no aprazível Shopping Cidade Verde, e encontrei o livreiro Francisco, um verdadeiro empreendedor, capaz e de muita persistência, quando as grandes livrarias fecham  ele abriu e vem enfrentando o curso da trajetória da pandemia do coronavírus, obrigado em muitas ocasiões, apenas ao trabalho delivery. 
 
Comentamos sobre os lançamentos, o sucesso de algumas obras e chegamos ao livro “O ar que me falta, uma História de uma curta infância e de uma longa depressão”, de autoria de Luiz Schwarcz, do editor bem sucedido da editora Companhia das Letras, uma obra autobiográfica de muito fôlego e franqueza, um testemunho com conotação histórica da família de origem judaica e húngara.
 
O livro consiste sobre a depressão expondo a intimidade, com uma narrativa franca e sem medos. Um verdadeiro depoimento aberto, não é uma ficção, uma exposição pessoal e de familiares. É uma reflexão sobre a doença, as causas, retratando desde a difícil infância pelas relações pessoais, mas, não esconde a sua condição social, de filho único e frequentando o clube Hebraico e a prática da religiosidade judaica encaminhado pelas mãos do pai André Schwarcz.
 
A retratação do pai na sua culpa permanente e suas consequências, quando consegue pular e fugir do trem que levava judeus para o campo de extermínio de Bergen-Belsen, encorajadas e impulsionadas pelo pai, deixando o avó do autor, Láios no comboio para morte,  crimes praticados pelo nazifacismo na segunda guerra, que teve o seu principal palco a Europa matando milhões de pessoas e dilacerando famílias com muitas atrocidades. 
 
A narrativa conta o percurso da imigração da família e sua diáspora. A difícil relação conjugal entre André e sua mãe Mirta, colocando o filho único como protagonista do entendimento e da sustentação da unidade familiar com ‘responsabilidades descabidas para a idade’. As dificuldades da mãe comprometida com a maternidade e as tentativas de gerar um irmão para o autor sem obter sucesso, que levava ela para a cama, mas com a atenção redobrada do filho único na assistência.
 
As colônias de férias e seus infortúnios, os apelidos, a experiência de goleiro e seus êxitos, a convivência com os avós maternos Giuseppe e Mici, a convivência com o avô na gráfica de cartões denominada Cromocart, a iniciação da leitura incentivada pela mãe, à importância da música na sua vida, o detalhe da assistência televisa da final do festival de 1967 e a disputa das músicas: Ponteio, Domingo no Parque, Roda Viva e Alegria, alegria.
 
A influência da religiosidade judaica, as experiências com o pai André na frequência da sinagoga, o peso do manto (talit de lã) de Láios o avô paterno, a observação da tristeza do pai no Yom Kipur e no Kol Nidrei, a participação no Chazit e o encontro com o Rabino Sobel e na Europa com a oportunidade de conhecer Golda Meir e Menachem Begim, líderes do judaísmo israelita.   
 
A vida acadêmica na Fundação Getúlio Vargas, as leituras de Émile Durkheim, Weber, Marx, Florestan Fernandes, Fernando Henrique Cardoso, a dedicação aos livros de Michel Foucault, a editoria da Brasiliense, a importância da Companhia das Letras e da sua esposa e escritora Lilia Schwarcz, e as obras lançadas, como Chatô o Rei do Brasil de autoria de Fenando Morais e seus percalços no dia do lançamento. 
 
O enfrentamento a depressão, a descoberta da personalidade bipolar, o apoio dado incansável da unidade familiar, da esposa Lilia Sshwarcz e seus filhos Júlia e Pedro, os silêncios, a necessidade de chamar atenção e os atropelos, os remédios e estabilizadores de humor com as repercussões na personalidade, os médicos e especialmente a importância de  Drauzio Varela.
 
A leitura é enriquecedora e oportuniza o conhecimento sobre a depressão e da bipolaridade, principalmente para quem convive com familiares portadores destas doenças psiquiátricas. O livro é de fácil leitura lançado em 2020, recomendo a leitura e para facilitar é bom ver a entrevista dada por Luiz Schwarcz a Leandro Karnal no canal do you tube.