Fabio de Oliveira

10/05/2021

 

 
Degradações existenciais e meios de reexistir
 
 
Nossa Pindorama ainda é um país com uma extensa e rica biodiversidade. A Mata Atlântica, Amazônia, Pampa, Cerrado, Caatinga e Pantanal formam ecossistemas diversos e cheios de belezas naturais, além de ter a vida animal presente nesses territórios. Sabemos que em outros países somos vistos por essa ótica excêntrica de uma “natureza exuberante”. Essa mesma ótica não enxerga com nitidez que todo esse paraíso vem sofrendo variações ambientais desde a invasão europeia e, consequentemente, degradações étnicas dos povos indígenas que viveram e vivem nesses ecossistemas.
 
Lembro dos relatos das cartas de “achamento” que informavam a “Sua Alteza” sobre as diversas árvores, frutas, terras e vidas animais. E estavam certos, tínhamos toda essa maravilha verde intacta até mesmo pelos povos originários. Há uma relação intrínseca entre os povos indígenas e a natureza. Essa relação afetuosa com a Terra-mãe e a ancestralidade sempre esteve presente. Como afirma Ailton Krenak: “os indígenas não se veem separados da natureza, mas se sentem parte integrante dela. Por isso, as pedras, as montanhas, as árvores, são tratados como pessoas, como sendo seus pais, mães, filhos, parentes. Nessa troca de afeto com a natureza, eles recebem e dão presentes entre si.” E é devido essa relação respeitosa, equilibrada e sustentável, que nossos povos nunca precisaram devastar territórios, pois não tinham a necessidade de tirar da natureza mais do que precisávamos.
 
Contudo, não há mais tantas matas, terras e rios como na época dos nossos antepassados. Essas reduções têm sido ocasionadas pelo ecocídio e hidrocídio constantes, que vêm ocorrendo através dos mais variados interesses e formas de extermínio.
 
Assistimos nos noticiários os mais variados “desastres ambientais” causados pelas mineradoras (In Memoriam Brumadinho e Rio Doce), que têm despejado substâncias tóxicas, matando nossas águas e solos.
 
 Os desmatamentos e queimadas têm aumentado exponencialmente em razão dos empreendimentos ligados aos setores de turismo e de alimentação, os quais descaracterizam as vegetações. A alegação deles é que os solos são improdutivos e que servem apenas para construírem resorts, hotéis e pasto para o gado.
 
Vemos o latifúndio e suas tecnologias nas caras campanhas de marketing do agronegócio. “Agro é tech, Agro é pop, Agro é tudo”. Essas campanhas mascaram toda a destruição e exploração existentes e, assim, deslegitimam as nossas lutas por demarcação de terras.
 
Não estou limitando os povos indígenas a seus territórios. Os meios de subsistências, através da natureza, se encontram escassos em virtude das ações exploradoras destes empreendimentos. Dessa forma, alguns dos nossos direcionam seus meios de reexistências para outras localidades, deslocando-se para os centros urbanos.
 
Precisamos ter consciência dos impactos que essa devastação ambiental causa e que essas linhas não descrevem totalmente o que nossos povos vivenciam e o quanto já foi exterminado. Devemos, o mais breve possível, tomar ações coletivamente e soluções sustentáveis para um planeta melhor para as próximas gerações, considerando e respeitando todas as formas de existir na biodiversidade. Temos de manter a natureza viva e garantir a existência dos povos tradicionais. Pense nisso.