Ana Paula Campos

12/05/2021
Com quantas empregadas se constrói uma patroa?
 
 
Hoje teremos a contribuição reflexiva do estudante negro de psicologia, Paulo Sá, sobre a questão de trabalho doméstico no país. Boa leitura.
 
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Paulo Sá
 
Quem acompanha esta coluna já sabe que ela está aberta para outras Vozes racializadas que queiram, através da sua escrita, expor seu pensamento, quer seja sobre racismo ou sobre o que mais desejar, afinal, nós negres falamos sobre tudo. Hoje lhes apresento Paulo Sá, que fará a sua contribuição esta semana. Boa leitura a todes!
 
É preciso dizer que o Brasil nunca transpôs o seu histórico escravocrata, ele apenas lhe deu uma nova dimensão contemporânea com ares de colonialismo. Qualquer relação estabelecida nesse país, e qualquer mesmo, sobretudo a da ordem do desejo (do ser, das coisas e da hierarquia) possui como pano de fundo o mesmo painel histórico enviesado. 
 
Talvez a figura mais emblemática e que inspira a minha mais perfeita curiosidade, ainda seja a imagem dúbia e contraditória da empregada doméstica (o Brasil tem o maior contingente do mundo). A "minha empregada", termo de posse, ainda transita naturalmente nos lábios das classes médias e alta da sociedade brasileira. Vamos dar um jeitinho na nomenclatura: "secretária do lar", aquela que é "quase da família", aquela mulher (marcador de gênero) que transita onipresente e onisciente numa família que não a sua, cujo lugar pleno sempre foi o da impotência porque, afinal, em termos humanos, o quase-pertencer é pior que o não pertencimento.
 
Para além das questões sociais extensas que incidem sobre o por que ainda é tão comum que mulheres ocupem esse tipo de atividade profissional no país. Me chama a atenção que as discussões sobre isso só eclodam quando um artista ou outro escancara aquilo que permanece como o lugar-comum da mulher periférica no Brasil e da nossa subjetividade social, como no caso recente da fala do marido da Ivete Sangalo que durante uma live culpabilizou “sua empregada” por haver contraído o vírus, afinal, ela precisava ir pra casa nos finais de semana. Não ignoro os avanços do movimento feminista na articulação nacional sobre o tema, mas me pergunto: quantas mulheres periféricas – sobretudo de cor – são necessárias para construir uma mulher que "vence na vida" na nossa atual configuração de sociedade?