Ana Paula Campos

19/05/2021
 
Hierarquia é sinônimo de opressão?
 
Ao ouvirmos a expressão “hierarquia”, podemos relacioná-la imediatamente à militarização, pensando nas patentes e concebendo-as em uma estrutura vertical: quem está na base é subordinado a quem está no topo. Ou talvez você conheça a Távola Redonda, aquela famosa organização em círculo dos cavaleiros da lenda inglesa da obra O Rei Arthur, que passava a mensagem de que não existia nenhum cavaleiro mais importante que o outro. Chega a ser cansativo ter que relembrar, toda vez que discutimos um assunto, que praticamente tudo que admiramos no Ocidente, na verdade, trata-se de um legado roubado do continente africano, ou até mesmo uma versão mal diagramada dos nossos saberes. 
 
Para nós africanes, é muito importante a filosofia da circularidade. Nossas civilizações são organizadas de tal forma que não existe um ser mais importante que outro. Até mesmo nossa relação com a natureza é pensada de forma igualitária. Não nos vemos superiores aos animais ou às plantas. Nós coexistimos. Inclusive, até para retirar uma folha para fazer um chá, pedimos agô (licença em Iorubá). 
 
No Brasil, nossa diáspora africana, em uma tentativa de manter vivo nossos valores ancestrais diante das imposições genocidas do Ocidente, levou a filosofia da circularidade à capoeira, ao candomblé e demais religiões de matriz africana. Ambos organizados em círculo têm categorias hierárquicas que devem ser respeitadas. Contudo, cada indivíduo é importante na gira e tem sua relevância para o bom funcionamento da casa. 
 
Até a expressão “tempo é posto”, muito comum no meio militar, é visto nos espaços afro-brasileiros. Quem chega no terreiro precisa respeitar os saberes dos mais velhos; não por uma questão de poder ou força coercitiva, mas pelo respeito e compreensão de que o maior aprendizado acontece no ato de silenciar e ouvir quem tem mais tempo de caminhada. Nos terreiros sempre seremos mais novos que uns e mais velhos que outros. Exercemos o respeito enquanto somos respeitados, já que estamos em constante aprendizagem.  É compreender que um dia também estávamos iniciando nossa jornada. Essa é a chave para não cairmos no fosso da arrogância. 
 
Para nós, pensar hierarquia é um modo de valorizar e enaltecer aquelas/es que carregam um ensinamento milenar e que têm muito a nos ofertar. É compreender que não podemos caminhar sozinhos, porque é de mãos dadas com nossas/os mais velhas/os que saberemos quais são os percalços da vida e como geri-los. É, inclusive, nos mantermos atentos para honrar com nosso orí (cabeça em Iorubá), uma vez que também somos as referências de alguém que está começando. É uma gira e nessa roda todes aprendem e todes saem ganhando.