Ana Paula Campos

26/05/2021
 
Um racista cruzou meu caminho
 
Minha amiga Bia Crispim, também colunista do Jornal Potiguar Notícias, publicou uma crônica falando sobre o dia em que um transfóbico cruzou seu caminho.  Inspirada na sua narrativa, resolvi contar a vocês sobre o dia em que um racista cruzou meu caminho.
 
Uma pessoa conhecida estava buscando alguém que tivesse conhecimento sobre racismo estrutural para dialogar com um amigo dele. Pensando que se tratava de uma live ou entrevista, topei de imediato. Quando o rapaz entrou em contato comigo, enviou a seguinte mensagem: “Eu perguntei a ele se conhecia alguém que tivesse conhecimento sobre racismo estrutural. Eu procurei porque acredito que tenha esse comportamento, em um período muito curto eu venho apresentando sinais de ‘racismo’ não eu queira na prática mais que já é algo inserido na sociedade [sic]. Por isso queria ter uma conversa on-line no qual [sic] também gostaria de gravar para postar em um canal que acabei de criar, gostaria de compartilhar o máximo sobre esse assunto que é muito importante para desconstrução dessa cultura que não tem nada de cultura [sic]”. 
 
A fala do sujeito por si só o denuncia e revela seu perfil. Vejamos. Ele inicia dizendo que “em um período muito curto vem apresentando sinais de ‘racismo’ estrutural’”. O sujeito fala de racismo estrutural como se fosse uma patologia e não como um sistema de opressão. Além disso, vale ressaltar que ninguém se torna racista de uma hora para outra. Desde o momento que nascemos, compreendemos como o mundo opera, ou seja, quais são os padrões hegemônicos e, portanto, aceitáveis e desejáveis. 
 
Observem também que ele escreve “racismo” entre aspas, tentando amenizar sua conduta racista. O cara possivelmente foi repreendido por alguém, mas mesmo assim não admite ser racista e “passa pano” para si próprio, tanto que tenta justificar suas ações dizendo: “não eu queira na prática mais que já é algo inserido na sociedade”. Essa é uma fala clássica. Os racistas nos ouvem falar que o racismo opera no nosso inconsciente social e já aproveita para distorcer o sentido real do discurso, eximindo-se da responsabilidade de admitir que quem sustenta essa estrutura são eles. 
 
Por fim, ele pede para gravar minha apresentação para postar em um canal que acabou de criar. Vejam só, ele nem quer se dar ao trabalho de ler, estudar e pesquisar para desconstruir seu pensamento, produzir seu próprio conteúdo e educar seus pares brancos. Me parece que seu objetivo foi apenas ganhar views e likes, passando de antirracista à custa dos outros. 
 
Ele conclui dizendo que o tema é importante para “desconstrução dessa cultura que não tem nada de cultura”. Confesso que esse trecho foi complexo demais para minha cabeça. Alguém arisca um palpite sobre o que ele quis dizer?