Bia Crispim

28/05/2021
 
Quem cuida das crianças trans?
 
 
“As crianças trans existem.” É assim que começa uma matéria interessantíssima sobre o tema que li esses dias no site bebê.com do grupo Abril. A matéria é de 2017, mas o assunto está cada dia mais atual. Segundo o que está no site “A questão é de tal relevância que em junho de 2017, a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) lançou um manual para orientar pediatras sobre a disforia de gênero, definida como um “desconforto ou sofrimento causado por uma discrepância entre a identidade de gênero de uma pessoa e seu sexo atribuído no nascimento”” e acrescenta que “muitas (crianças Trans) ainda não recebem o apoio que merecem e as consequências podem ser trágicas. Felizmente, sabemos mais do que nunca que essas crianças precisam crescer seguras e saudáveis, mas infelizmente não é isso que ocorre na prática.
 
Muitas perguntas me invadem enquanto escrevo essa coluna: Quem cuida dessas crianças? Alguém cuida? Quem as acolhe? Alguém acolhe? Como as recebem e as tratam? De que maneira são (des)respeitadas em suas identidades, subjetividades e performatividades? Apesar da criança e do adolescente, em razão de sua vulnerabilidade gozar de proteção especial na Constituição Federal, no Estatuto da Criança e do Adolescente, no Código Civil, em leis esparsas, bem como em tratados internacionais, sabemos que, na realidade nada disso é efetivamente aplicado quando se trata, sobretudo, de uma criança Trans.
 
Segundo as pesquisadoras Fernanda Moreira Benvenuto e Patrícia Akemi Sato quando esta criança/adolescente é Transexual, verifica-se que o que se manifestam são modalidades de violência intrafamiliar, como a física, a sexual e a psíquica, constatadas por meio de atitudes que depreciam o/a menor Transexual. (É dentro de casa, exercidas pelos pais e responsáveis de tutelar essas crianças que essas violências se iniciam)
 
Violências que se concretizam pela ausência de afeto; pela falta de assistência psicossocial e médica; pela alienação parental, dentre outras formas de violência que aparecem como práticas recorrentes, o que transforma o ambiente familiar em um lugar inseguro, insensível para o/a menor Trans, lugar que promove a baixa autoestima, em lugar da alta autoestima; que desenvolve patologias graves para essas crianças e adolescentes, o que, em alguns casos, leva-os/as à tentativa de suicídio ou ao desesperado impulso de amputação de suas genitálias e/ou outras partes de seu corpo. 
 
“Todas estas formas de abuso são igualmente deletérias para o desenvolvimento infanto-juvenil, configurando-se em um atentado contra os direitos da personalidade.” Dizem as pesquisadoras. 
 
Infelizmente a sociedade civil, de forma generalizada, fecha os olhos para essas realidades e preferem entender que a violência física e psíquica intrafamiliar em relação às crianças e aos adolescentes Transexuais não violam os direitos da personalidade, afrontando assim o princípio da dignidade da pessoa humana, pelo contrário, é entendida como a forma “certa” de “dar um jeito” no/a filho/a” que “tá inventando moda”, que “quer ser mulher”, que “quer ser macho-fêmea”, que “só vai trazer desgosto e vergonha pra família”
 
Portanto, faz-se necessário que a ciência nos esclareça sobre toda a complexidade e diversidade do ser humano, para que possamos nos compreender melhor; que possamos, enquanto sociedade, nos abastecermos de conhecimento para que a ignorância, mãe da intolerância e da falta de respeito pare de nos expulsar de nossas famílias, nos invisibilizar, nos causar tantos danos e nos exterminar; que permitamos evoluir e exercer uma humanidade cujo amor ao próximo seja sua máxima; que a família reveja seus valores; e que o/a menor Transexual possa se desenvolver de forma salutar dentro das relações familiares, para que sua integridade e a sua dignidade sejam garantidas e respeitadas.
 
Crianças Trans existem e precisam da ajuda de todas as pessoas para que não se tornem adultos inexistentes.