Fabio de Oliveira

31/05/2021
 
Entre festividades e lutas
 
 
Em 27 maio de 2018, eu estava arrumando minha bolsa às pressas para ir à zona rural de Macaíba/RN, especificamente na comunidade indígena Lagoa do Tapará, onde ocorreu uma festividade importante do Estado potiguar: a IV Feira Cultural Indígena da Lagoa de Tapará. Sem certezas do que de fato eu vivenciaria, tomei de transporte a linha I em direção ao centro de Macaíba, para, posteriormente, subir na garupa de um moto-táxi em mais uma viagem cruzando asfaltos, estradas de barro e terrenos cercados.
 
Na feira havia muitas barracas com uma diversidade incrível: exposição, vendas de artesanatos e comidas típicas produzidas pelas Tapuias, além de produtos orgânicos e mudas de plantas nativas, etc. Na ocasião, levei uma lembrança para minha mãe que até hoje ela aprecia: uma bonequinha de pano feita pelas artesãs da Tapera Arte. Além disso, ocorriam oficinas, diálogos, toré (dança indígena típica do Nordeste) e jogos indígenas, como a roda de peteca e a corrida de tora, também conhecida como corroveára. Um excelente espaço para trocas culturais das comunidades indígenas entre si e entre as comunidades não indígenas.
 
Tinha conhecimento da lagoa que dava nome à comunidade e questionei a um parente sobre como ter acesso a ela. Anteriormente, ela era utilizada como meio de subsistência, porém, hoje a área está cercada e seu acesso é colocado em pauta nas reivindicações da comunidade. A lagoa leva o nome da própria comunidade, tal fato enfraquece qualquer argumento de impedimento do acesso coletivo a ela.
 
Assim como toda festividade em comunidades indígenas, o evento foi organizado com muito esforço coletivo pelos parentes da etnia Tapuia de Tapará, tendo como sede o Conselho Comunitário Indígena local, contando com o apoio do público externo. Em virtude do cenário pandêmico, este ano não ocorrerá a nova edição da Feira Cultural, nem as demais festividades indígenas do Estado.
 
É de extrema importância frisar que esses eventos buscam fortalecer nossos grupos, nossas resistências e à valorização da nossa identidade étnica. Dessa forma, é fundamental participar dessas festividades, não somente para conhecer os movimentos culturais indígenas e suas diversidades, mas principalmente para compreender e apoiar as lutas constantes contra a especulação imobiliária, à tomada de terras pelo latifúndio e pela agropecuária, bem como contra a omissão do Governo, que oprime e cerca nossos povos, negando-nos direitos.