Valério Mesquita

31/05/2021
MACHADINHO
 
Perdemos dia 26 passado, a figura do jornalista potiguar João Batista Machado, aquele rapaz, inquieto e idealista, que deixou a sua querida cidade de Assú, na década de 1960, para realizar seus sonhos em Natal. 
 
Sua vocação se revelou espontaneamente. Foi uma opção de vida. Seu salto para a maturidade, exaurindo prematuramente sua adolescência, ocorreu ao exercitar o jornalismo na Tribuna do Norte. Nos anos 70, jornalista reconhecido e disputado, realizando inesquecíveis reportagens e entrevistas com os grandes homens públicos do Estado, encontrava-se no primeiro time do Diário de Natal. Naqueles tempos, o jornalista, além do compromisso com a verdade e a preservação de sua dignidade profissional, tinha que conviver com os constrangimentos emanados da conjuntura político-institucional. João Batista Machado jamais sucumbiu nos seus valores e nos seus compromissos ético-profissionais.
 
Câmara Cascudo, comentando em tom jocoso o quotidiano do viver em Natal, dizia que ”nesta cidade tudo se vê, tudo se ouve, nada se esconde”. O conceito profissional como jornalista digno e competente foi o referencial que levou o governador Tarcisio Maia a convidar João Batista Machado para assumir e exercer em seu governo o cargo de Secretário de Imprensa. Do mesmo modo nos dois governos de José Agripino Maia, de Radir Pereira e Vivaldo Costa. Também exerceu o cargo de Assessor de Imprensa da Federação do Comercio do Rio Grande do Norte e do sistema SESC/SENAC. Foi também Diretor de Comunicação Social do Tribunal de Contas do Estado.
Carlos Castelo Branco, que, através de sua coluna diária no Jornal do Brasil, registrou e analisou a nossa História em 50 anos do século XX, dizia que o jornalista é, ao mesmo tempo, personagem e espectador da História.
 
E por falar em Castelinho, o genial jornalista que reinventou o jornalismo político no país com brilho e credibilidade informativa, devo dizer que João Batista Machado também assim procedeu com relação ao Rio Grande do Norte, tanto através de suas reportagens ao longo do tempo como através dos seus livros. E registro, igualmente, a simpatia e apreço que o pequeno grande jornalista piauiense devotava ao seu colega de Assú, amizade construída em Natal em 1982, quando aqui veio em missão profissional, deixando os dois, como não poderia deixar de ser, pelos bares e restaurantes natalenses, a marca registrada do consumo do melhor escocês. Quatro anos depois, Machado precisou retificar uma noticia veiculada na célebre coluna do Castelo no Jornal do Brasil a respeito da política do Rio Grande do Norte. E para merecer uma acolhida in totum, nessa coluna, só quem desfrutasse efetivamente de prestigio político e cultural ou da estima pessoal do renomado jornalista. O nosso João Batista ocupou o espaço que a amizade e a admiração do seu colega lhe permitia na edição do Jornal do Brasil de quarta-feira, 17 de setembro de 1986, através da transcrição de um longo esclarecimento.
 
Raymond Aron, um dos maiores pensadores do século passado, acrescentava que o jornalista seria sempre um espectador engajado, pela impossibilidade de desnaturar-se, ou seja, abdicar dos seus ideais, dos seus sonhos e dos seus sentimentos. Dizia que a condição humana aflora e explode, incontidamente, no dia a dia do jornalismo.
João Batista Machado fêz História. Seus livros, todos eles, preservam a memória política do nosso Estado. Dá-lhe vigor e autenticidade. Assim se sucederam ”De 35 ao AI-5”, ”Política no atacado e no varejo”, “Anotações de um repórter político”, ”Como se fazia governador durante o regime militar”, “1960: Explosão de paixão e ódio” e “Perfil da República no Rio Grande do Norte”.
 
Da grande dama das letras francesas, Mauguerite Yourcennar, ao ser recebida na Academia Francesa, foi-lhe dito que seu ingresso era uma redundância, pois a sua obra, há muito tempo, tornara-a habitante daquela casa secular. A vida profissional e a obra de João Batista Machado, limpo e isento, há muito tempo, tornaram-no membro da Academia Norte-Riograndense de Letras.
 
Hoje, ele fará falta não apenas ao jornalismo, mas aos órgãos de cultura e a plêiade de amigos e admiradores espalhados por todo o Rio Grande do Norte.