Ana Paula Campos

02/06/2021
 
Permitam-me fazer da coluna meu divã
 
Somos atravessades por diversas identidades e é sempre um desafio conviver com todos os eus que coabitam dentro de nós. É impossível pensar o indivíduo tomando como referência apenas um dos marcadores, porque um acabará interferindo no outro, seja de forma positiva ou conflitante. Sou muitas.
 
Eu sou aquela filha que perde a mãe aos 14 anos e a avó alguns poucos anos depois, deixando memórias, narrativas matriarcais e ensinamentos ancestrais que me ajudaram a seguir adiante.
 
Eu sou aquela mulher que se descobre negra tardiamente e hoje tenta juntar os pedaços de quem foi, para moldar a mulher que hoje pretende ser. Livre de culpa. Foram décadas de violência psíquica sustentada pelo mito da democracia racial. 
 
Eu sou a mãe que segurou a barra sozinha por tantas vezes, que hoje se vê cansada e perdida, diante dos desafios de criar uma filha adolescente, ainda por cima tentando romper com os padrões excludentes com os quais cresceu. Conciliando maternidade e carreira numa corda bamba. 
 
Eu sou a companheira que respira e baixa as armas em tentativas constantes de se permitir receber amor e cuidados, quando já havia acreditado em discurso falacioso que corpos negres não são dignos de afetos.
 
Eu sou a filha de santo que pisa o solo sagrado do terreiro, que entre um paó e outro aprende a baixar a cabeça, silenciar e ouvir quem veio primeiro em sinal de respeito. 
Eu sou a professora que diariamente se reinventa, planeja, envia atividades, corrige, pesquisa, estuda, consola famílias, acolhe alunes e descobre, através da Tribuna do Norte, que está há 407 dias sem trabalhar. 
 
Eu sou a militante que morre um pouco cada vez que lê os noticiários e o genocídio do seu povo está lá presente. Que enlutesse pela desumanização dos seus, em programas criados para entreter pessoas.
 
Hoje é um daqueles dias pesados, quando as feridas de todas essas mulheres sangram. Ao escrever, penso no meu quilombo: irmãs e irmãos que bebem desta fonte (coluna) semanalmente. Considero se devo ser tão honesta sobre quem sou, revelando minhas fraquezas, mas depois lembro que são essas feridas sangradas que me resgatam a humanidade e, como tal, informam que vilões, heróis e super poderes são ilusões criadas pelo Ocidente. Nós, pessoas negras, sobretudo mulheres, carregamos nossas dores enquanto seguimos nos fortalecendo para a luta. Não tem sido fácil, mas eu ainda estou aqui e sobreviver será meu maior ato de revolução.