Bia Crispim

04/06/2021
 
Grande leoa
 
Sei que junho é o mês do orgulho LGBTQIA+. Sei que muita gente gostaria de ler algum manifesto meu diante das últimas declarações de algumas pessoas da mídia. Porém, ontem, dia 03 de junho, completou 21 anos da passagem da minha amada avó. E é em homenagem a ela que reproduzo aqui um texto que escrevi já há algum tempo. Deixo registrada minha eterna saudade!
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A Vovó Martiniana
 
Era um dia ensolarado, brilhante e quente. O céu azulíssimo lembrava os olhos de minha avó. Minha cabeça voltou no tempo e diante de mim surgiu a imagem daquela mulher pequena, branca, de olhos azuis e cabelos curtos, sorriso alegre e vestidinho florido um pouco abaixo dos joelhos, abria-me os braços cheia de carinhos e afagos.
 
Ela me levava para a cozinha onde o fogão de lenha preparava doces, cocadas de goiaba. Como os cheiros confundiam-se ali. Cheiro de fogo, de madeira queimada, cheiro de goiaba e coco e peixe que chiava sobre as tachas de ferro. Cheiro de alfazema que exalava do corpo de minha avó com os olhos de mar e céu.
 
Se os cheiros eram bons, imagina os sabores. Inconfundíveis. O café forte e amargo que aprendi a beber descobrindo seu gosto. A sopa deliciosa de "boquinha de noite". A coalhada adoçada com açúcar mascavo ou mel - colhido ali mesmo, no quintal.
Minha memória fez-me ter... Quantos anos?! Talvez 10, ou menos. Fez meus olhos marejarem. 
 
Aquela mulher ensinou-me o que era "permitir". Permitir ser criança, sem fronteiras, que explorava o grande "muro" correndo, brincando, pulando, colhendo folhas, flores, frutas. Mexendo nas hortas, perseguindo as lebres, fugindo de canoa pelo açude, que banhava a porta de trás da casa. 
 
Vovó ria com seus olhos de mar. Martiniana era seu nome. 
 
A alegria em ter-nos por perto, deixava esse mar lindo, cheio de verão. Cuidava de todos, aninhava todos, como gata mãe que era. E como gostava de gatos! 
Seu lar era uma cama de gatos, muitos, tantos, cores, tamanhos, miados e peculiaridades. Havia gatos-filhos, mimados, com lugar cativo embaixo da rede de vovô. Ou com cama reservada para dividir com os visitantes. 
 
Lembro-me de vovó preparando peixes frescos, recém-pescados para todos os seus meninos e meninas felinos. Acocorada com as saias presas às pernas, ela tirava as escamas e vísceras, o fel amargo e deixava o filé, as guelras para serem disputados à tapas e grunhidos pelos bichanos.
 
Grande leoa, minha vó pequena. 
 
Entendia daquele universo animal como se sua espécie fosse outra, felina. (E qual mulher não o é?) Sua grande festa era ver a casa cheia em dias de Nossa Senhora dos Remédios. Devota, religiosa, dedicava parte de seu dia às orações. 
 
Dormia cedo, acordava cedo. Atividades para o dia todo não faltariam. Mulher enérgica, plena de vida e alegria. (Quanto não herdei de ti?!)
Muito herdei daquela pequenina. 
Herdei amor, herdei cozinha, herdei felinidade, herdei doce, herdei peixe solto dentro d'água, herdei sorriso, herdei aconchego e recebimento, herdei oração e silêncio, herdei energia e agilidade, herdei a pele branca. 
Não herdei uma coisa: os seus olhos azuis de mar.
 
Mar de Martiniana. 
Mar que me traz em ondas de lembrança a figura de minha avó, a qual, decerto, está no céu, tão azul e lindo como o dia de hoje.