Eliade Pimentel

04/06/2021
 
Até as (pequenas) compras dizem quem somos
    
Fiz um cafezinho na caneca (tenho esse hábito, para não sobrar) e procurei uma xicrinha para compartilhá-lo com meu irmão. Procura daqui, revira dali, e achei uma daquelas pequenas, esmaltadas. Pedi desculpa pela ferrugenzinha aparente no cantinho e disse que precisava ir às compras de certas coisinhas de casa. Começamos a rir de minha constatação, visto que outro dia ele me presenteou com um conjunto de vasilhas com tampa.
 
Na verdade, rimos mais porque a pessoa (no caso, eu), que resume ao máximo suas necessidades de compras, admitiu precisar de algo no comércio que não seja comida. Sim, precisos de xícaras de todos os tamanhos, copos de vidro (lembrou ele) e potinhos pequenos com tampa (disse eu), pois o irmão lembrara os tais potes, os quais não usei ainda por pura falta de prática com novos utensílios em casa (geralmente reutilizo potes, frascos etc). 
 
Na verdade, o que compramos e as necessidades que temos dizem muito sobre nós. Dizem mais do que nossa renda. Quero dizer que nem sempre as necessidades, as listas de desejo e os gastos correspondem ao que ganhamos. E sim, às expectativas criadas por nós e ao meio em que vivemos. Estão inclusas as nossas influências, o nosso estilo de vida, o nível de exigências (as nossas frescuras), ou se fôssemos falar em uma linguagem mais acadêmica, as nossas idiossincrasias – ou seja, as nossas particularidades.
 
Eu não tenho TOC – transtorno obsessivo compulsivo – quanto à arrumação, alinhamento de cores, texturas e otras cositas más - e mesmo assim, se o tivesse, eu tenho certeza de que cuidaria dessa obsessão sem gastar muito. Eu mesma me ocuparia em pintar tudo bem direitinho, combinando, para padronizar as coisas. O fato é que eu penso (bastante) antes de ir às compras. Não sou afeita a fazer listas (literalmente), apesar de escrever alguns itens de vez em quando, num pedacinho de papel, mas mesmo sem registrar minhas necessidades, eu saio de casa pensando no que devo adquirir. 
 
Digamos que eu faça listas mentais. Sou daquelas pessoas que quando viajam inserem nas listas de compras coisas do dia a dia. Adoro comprar materiais de higiene pessoal em outras cidades. Teve uma vez que minha prima me levou numa loja maravilhosa no bairro Liberdade, na capital paulista, e eu comprei estoque de escovas de dentes, além de repor com louvor meu xampu e o condicionador, que eu de propósito deixo acabar antes de viajar. Cumpro dessa forma com aquela fantasia de viajar e sair às compras. 
Outra coisa bacana é observar os produtos em supermercados e a variedade de frutas nas feiras livres. Para quem tem acesso normalmente a frutas geralmente em calda, como pêssegos, encontrá-los frescos ao preço de frutas da estação faz um bem danado. Lembrei-me de um conto de Caio Fernando Abreu em que a personagem meio hiponga estava na fila de supermercado agarrada a um vidro de geleia que ela dizia no pensamento “durázno”, ou seja, a fruta no idioma espanhol. 
 
Esse tipo de “viagem”, quer dizer, agora entre aspas – vejam que coloquei bastante coisas entre parênteses – nos mobiliza a ter desejos objetivos e fáceis de serem obtidos. Exemplo: fui ao Rio Grande do Sul pensando em comer torta Martha Rocha e aqueles sandubões típicos das lanchonetes e trailers de Porto Alegre, que apesar de serem gigantes, são nominados basicamente de “xis”. 
 
O doce eu comi numa confeitaria no mercadão público e já matei dois em um, pois o local corresponde às fantasias de compras de uma viajante estilo vida simples e saudável como eu. Temperos, chás, ervas... Adoro esse tipo de compras. Vinhos baratos, cerveja e geleias de frutas produzidas na região. Pães, ah, padarias, entram num capítulo especial da viagem. Pois, então, meus amigos e minhas amigas, eu sou dessas, a pessoa que dificilmente será encontrada por aí comprando mil e uma blusas parecidas, sapatos quase iguais, utensílios os quais usaria apenas uma ou duas vezes. 
 
Até minhas listas de compras (ou de desejos) são muito minimalistas. Elas dizem o que penso, como vivo e como pretendo viver pelos próximos anos. Voilá.