Ana Paula Campos

09/06/2021
 
Não queremos dominar a senzala, queremos construir quilombos
 
Toda vez que me apresento como africana em diáspora alguém pergunta: “mas você não é brasileira?” Sim, sou também, além de LGBT+, nordestina, mãe, educadora, etc. A intelectual afro-americana Kimberlé Crenshaw, nos esclarece sobre as múltiplas identidades que colidem na esquina do nosso ser. Quando evidencio o marcador africano é para situar quem está me assistindo para que considerem meu ponto de referência de valores civilizatórios. 
 
O Brasil é reconhecido pelo continente africano e por várias organizações mundiais, como a ONU, como a maior diáspora africana do mundo, uma vez que temos a maior população negra fora da África. Se não fosse pelo sequestro do meu povo, eu não teria nascido aqui. Estou querendo dizer com isso, que minha história não começou aqui. Aqui ela foi interrompida.
 
Me reconhecer enquanto uma mulher negra afrocentrada também pode leva alguns a pensar que entrei em uma espécie de disputa para negar ou mesmo desqualificar o Ocidente. Esse equívoco revela mais sobre quem fala isso do que sobre quem eu sou, porque essa prática de cancelamento e apagamento epistêmico e cultural é ocidental. 
 
Hoje, mais do que nunca, ancoro-me no pensamento do afro-americano Magobe Ramose, ao defender uma existência pautada na pluriversalidade.  Nós, africanes em diáspora, não concebemos um saber ou uma cultura como universal e benéfica para todes. Pelo contrário, respeitamos todas as formas de existência e expressões existentes, desde que não sejam com o intuito de nos exterminar. Mas o Ocidente vai sempre querer nos impor uma única identidade e uma única forma de existir. 
 
Na condição de mãe, e sendo as escolas e as mídias espaços de reprodução das culturas hegemônicas, minha filha tem contato com o “mundo dos brancos”, mas também respira as culturas africana e indígenas aqui em nossa casa. É esse conjunto de vozes que, quando consumidos de maneira crítica, nos fortalecem. 
 
Quando eu evoco a agência africana é para sair, de maneira ética e estética, do Ocidente. É uma forma de me perceber e me compreender; isso só será possível através de um resgate da minha ancestralidade. É sabendo de onde eu vim que serei capaz de decidir com lucidez para onde eu vou.
 
Percebo o quão inseguro é o Ocidente porque, reconhecendo a nossa grandeza, precisa nos silenciar, fazendo valer um discurso distorcido sobre nós, para nos invalidar e não se admitir enquanto uma instituição falida. Não precisamos destruir a senzala. Vocês já fizeram isso por conta própria, queremos é resgatar nossos valores africanos e fortalecer nossos quilombos, sejam eles físicos ou simbólicos.