Ana Paula Campos

16/06/2021
 
TODX BRANCX É RACISTA 
 
Todx brancx é racista. Ponto.  E eu até posso imaginar que muita gente branca parou a leitura deste texto no título e saiu me xingando. Mas se você, que é brancx, continuou lendo, deve estar no mínimo incomodado com o título desta crônica, mas acredite, eu não tenho a menor intenção de te atacar. Então, abaixa as armas e vem cá. 
 
Quando eu afirmo que toda pessoa branca é racista, não é por uma questão biológica, nem tampouco essencialista. Também não estou me referindo a questões individuais. Para entendermos tudo isso, precisamos ter clareza sobre alguns conceitos, começando pelo de branquitude. Branquitude é um sistema que privilegia pessoas não negras. Estamos falando de uma estrutura racista, assim como a estrutura do racismo. Envolve o setor acadêmico, jurídico, midiático, político e assim por diante. Quando nascemos, somos inseridos nessa estrutura e somos informados sobre quais são os lugares que cada raça ocupa. Tudo tem cor. De maneira inconsciente, compreendemos que os conceitos de beleza, pureza e intelectualidade são características brancas, e somos levados a acreditar que todo preto é bandido. 
 
Quando xm branx é acusado de ter sido racista, a primeira reação é a defesa ou ataque. A pessoa logo afirma que não é uma criatura ruim, ou diz que não teve a intenção. Primeiramente, precisamos entender que quando alguém diz que você foi racista, você foi. O segundo passo é compreender qual atitude sua foi considerada racista e ficar atento para não fazer mais. Ninguém nasce racista, mas essa condição não está no campo do desejo consciente. 
 
Nosso inconsciente coletivo é formado pelas questões da sociedade na qual vivemos e nossas ações são fruto disso. As atitudes são das mais cruéis possíveis, como chamar alguém de macaco até naturalizar a ausência de pessoas negras em cargos de poder e decisão. Outro exemplo: quantas autores negres você leu na escola? Quantxs heróis e heroínas negres conheceu? Alguma vez você questionou isso? Não! Sabe por que? Porque para nós era normal que pessoas negras não produzissem conhecimento. 
 
Desse modo, precisamos entender que toda pessoa branca será racista em alguma medida. Umas mais, outras menos. Mas todas são. Entender e aceitar isso é o primeiro passo para ir além. Não dá para vencer o racismo se você não reconhece que existe o problema. Nesse contexto, separamos a branquitude em duas categorias: crítica e acrítica. Branquitude crítica são as pessoas brancas que têm consciência de tudo que foi dito acima, e justamente por esta razão, estão buscando romper com essa lógica. São pessoas que, na prática da vida cotidiana, combatem o racismo.  
 
Essas pessoas têm consciência dos seus privilégios e estão dispostas a sair do lugar confortável, mas ilusório de superioridade que a estrutura criou para elas. Porém, existe também a branquitude acrítica. Aquelas pessoas que morrem negando que são racistas e, com isso, não buscam aprofundar suas leituras, reproduzindo o que aprenderam no meio coletivo. Temos vários exemplos de branxs críticxs como Elisa Larkin, Lilia Schwarcz e a norte americana Robin Diangelo, assim como temos branxs que fazem questão de serem racistas como Gilberto Freyre, Monteiro Lobato e Bolsonaro. 
 
Ser xm brancx racista não significa necessariamente que você é uma pessoa ruim, apenas que você pode estar reproduzindo, sem pensar, uma prática que está matando pessoas negras, psíquica e fisicamente e é justamente por isso que o racismo precisa ser combatido. Todavia, alguém ainda pode me afrimar: “eu sou brancx, mas não tenho privilégios; sou pobre”. Isso já uma outra questão para ser analisada. 
 
Quando eu falo em privilégios, refiro-me ao fato de você ter vantagens sociais apenas pela sua cor da pele. É o fato de mulheres negras exercerem a função de empregada doméstica e ganharem menos que mulheres brancas que exercem a mesma função. O famoso “você não serve para o cargo”. Pessoas negras recebem tratamento mais hostil, são preteridas em empregos, superlotam presídios. E quando pensamos a questão, analisando o marcador social de gênero, a situação se agrava. 
 
As pessoas brancas não tomarem consciência de como o racismo opera, ou não aceitarem que são racistas, não muda os fatos. Isso serve apenas àqueles que já têm acesso garantido a direitos básicos e ainda acreditam que esse acesso é universal. 
 
Não se reconhecer como racista é interditar o debate com pessoas negras e fortalecer a estrutura que está posta. Quanto antes o diálogo for estabelecido, mais rapidamente poderemos alcançar mudanças.