Bia Crispim

18/06/2021
 
Quem cuida das crianças trans?  - parte 2
 
 
Antes de qualquer coisa, gostaria de pedir desculpas pela garfe que cometi na coluna da semana passada em que falava sobre o episódio da filha de Silvio Santos. Afirmei que o programa em que ela aparecia dando aquelas terríveis declarações era de Rodrigo Faro, contratado da Record. Na verdade, o programa em questão é apresentado no SBT e seu apresentador é Gabriel Cartolano. Perdoem-me, por favor!
 
Agora vamos ao que interessa. Tenho recebido muitos questionamentos desde que publiquei a coluna do dia 28 de maio intitulada “Quem cuida das crianças Trans? E resolvi fazer mais leituras sobre o assunto. 
 
Dentre elas deparei-me com e indico a leitura do artigo dos pesquisadores Márcio Alessandro Neman do Nascimento, Eloize Marianny Bonfim da Silva, Jefferson Adriã Reis e Jéssica Matos Cardoso, intitulado “Traíd@s pela verdade: Análise cinematográfica sobre a infância Trans nas obras francesas Ma vie en rose (1997) e Tomboy (2011)” – (filmes franceses cujos protagonistas são crianças Trans), que está na obra “Corpos em trânsito: Existências, subjetividades e representatividades”, livro publicado em 2020 pela Editora Devires e organizado por Aguinaldo Rodrigues Gomes e Antonio Ricardo Caroli de Lion, além do artigo “Paisagens psicossociais cinematográficas de uma infância trans: Análise cartográfica fílmica de Tomboy”, também dos mesmos autores, publicado no Periódicos científicos da UFMT, também em 2020.
 
Resolvi compartilhar com vocês alguns fragmentos desse último, pois entendo que a pesquisa científica pode ajudar a entendermos melhor nossa complexidade e pluradidade, pode servir como apoio para as famílias, as escolas e como uma possibilidade de refletirmos sobre o quão opressoras são as regras da “dita normalidade”, impostas pela sociedade sobre nós desde a infância. Além de deixar a dica dos filmes. (É claro!)
 
“Em um primeiro momento, somos interpelados pelo gênero por meio da linguagem antes mesmo de nosso nascimento, quando falam que somos menino ou menina a partir de uma atribuição de gênero e todos os signos que a envolvem. Nos dizem: menina é menina e ponto final ou menino não é menina e vice-versa . Ou ainda: meninos vestem azul e brincam com carrinhos e meninas vestem rosa e brincam com bonecas. E mais ainda: fecha as pernas que você é uma mocinha ou aja como um menino. 
Assim, antes de entendermos algo sobre gêneros ou termos a possibilidade de pensarmos sobre um gênero, ele chega até nós como uma moldura, que exige a reprodução e reiteração dos regimes de normalização. Butler (2008) afirma que as práticas discursivas produzem os efeitos que elas nomeiam, dessa forma, a performatividade se refere à reiteração dos discursos sobre os corpos, fazendo emergir, assim, existências aceitáveis e dignas de valor. Então, as identidades fixas nas categorias dicotômicas homem/mulher, masculino/feminino surgem a partir da matriz da inteligibilidade cultural e é ela também, que nomeia os corpos enquanto possíveis socialmente.
 
Porém, ao passo que experienciamos o mundo e vivenciamos nossos desejos, sentimentos e afetos podemos continuar incorporando e reproduzindo essas normas ou rejeitar e reivindicar esse gênero (BUTLER, 2018) 
 
(...) os gêneros se produzem em meio a conflitos, hierarquias e desigualdades, sendo alguns corpos e performatividades tidos como centrais e referências para os demais, considerados, portanto, “naturais” e “normais”, enquanto outros são considerados “anormais”, alvos de constantes vigilâncias e passíveis de regulação/normatização (LOURO, 2000b), por meio dos múltiplos discursos e regimes de verdades (FOUCAULT, 2011). Esses regimes de verdades são fundamentados por regras que definem e qualificam o que é um corpo, um gênero, uma vida e uma sexualidade inteligível, ou seja, o que é aceito e permitido socialmente e aquilo que é passível de controle, e, por fim, de extermínio (HARAWAY, 2011). 
 
A partir dessa perspectiva analítica, alguns questionamentos podem ser feitos com base nos estudos de Butler (2015): quais vidas são dignas de serem vividas? Quem conta como sujeito? Quais gêneros e sexualidades são aceitos? A quais corpos se voltam a violência para se manter o que se valida como vida? Quais existências importam? Quais vidas são passíveis de luto? 
 
Assim, nessa ordem adultocêntrica, hegemônica, teleológica e binária da vida e das corporalidades, as crianças e corpos infantis dissidentes representam a ruptura, colocam em xeque as normas, ressignificam as identidades sexuais e de gênero, resistem às políticas de controle e de normalização e os regimes de regulação da vida e, por isso, inicialmente, devem ser vigiadas, controladas e, por fim, até mortas, pois instabilizam os regimes tidos como verdades e bagunçam a inteligibilidade social (BUTLER, 2008). Dessa forma, outras perguntas podem ser apresentadas: por que uma guerra é declarada a uma criança? A meninos afeminados, meninas masculinas e crianças viadas? De que maneira a sexualidade de uma criança configura em seu assassinato? Como uma morte pode ser considerada necessária para a “conformidade” social? Por que a indeterminação ou a transgressão de gênero se constituem como um pânico moral (MISKOLCI, 2007)? E mais: como a normalização contribui para o apagamento dessas crianças? (CORNEJO, 2010, 2015).”
 
REFLITAMOS!!!