Ana Paula Campos

07/07/2021
 
Quem se beneficia da sua militância? 
 
Penso que estamos vivendo momentos de grandes performances. A internet, mais do que nunca, tem dado as ferramentas para criar universos esplendorosos. São fotos com edições incríveis, vídeos cheios de recursos. Uma timeline perfeita. Não pretendo, de modo algum, fazer julgamentos ou levantar críticas sobre a maneira que cada indivíduo escolheu para se expressar nas redes sociais. Meu objetivo com o texto de hoje é mais levantar uma reflexão sobre tudo isso. Se ao final da leitura desta crônica você achar que faz sentido para você, ficarei feliz. Caso contrário, seguimos na nossa diversidade. 
 
Tenho pensado muito sobre a minha militância. Eu tenho encarado isso como uma missão ancestral, longe de ser um fardo, apesar de ser algo que nos esgota aos poucos, devido às questões estruturais do racismo. Às vezes fico pensando se tudo isso a que me proponho está fazendo sentido e se devo continuar. Acredito que muito da minha angústia se deve ao fato de que, inconscientemente, também quero estar no centro dos holofotes. Mas será que é realmente isso que importa?
 
Eu não escolhi estar aqui. Não escolhi me tornar referência no debate sobre racismo e negritude no RN, nem ser a primeira de nada. Mas honro e sou grata a quem veio antes e às/aos bons guias e ancestrais por isso. À medida que fui me conhecendo e aprofundando as leituras, a coisa foi fluindo e seguindo esse fluxo. Assustada, tentei me boicotar algumas vezes e recebi mensagens incisivas de amigas do tipo: “veio para você, é seu! Honre com seu orí”. Hoje não tenho como não seguir à diante, afinal, como me ensinou a mais velha Audre Lorde, meu silêncio não vai me proteger. Mas à medida que amadureço nesse processo, tenho pensado muito sobre quem se beneficia da minha luta. 
 
De nada adianta, pelo menos para mim, estar no palco de grandes espetáculos ou no foco da mídia, se eu não puder contribuir minimamente de maneira positiva na vida daqueles que estão próximos a mim. Penso que é muito mais sobre isso. Repito, não estou aqui na posição de me sentir superior a ninguém, julgando o fazer das outras pessoas. Quero é que tudo isso faça sentido para mim. 
 
Estou numa fase da vida que a dedicação à minha filha surda, aos amigues negres que estão pior nesta pandemia, e a realidade de terreiro da qual faço parte, são minha prioridade. De que adianta eu me esforçar tanto para mudar toda uma estrutura, se não consigo ou nem sempre tenho tempo para segurar a mão de quem amo e dizer que vai ficar tudo bem, ainda que eu não faça ideia de como vamos conseguir chegar lá? Nessa jornada, cuidar e ser cuidada tem sido uma prioridade. A intelectual Aza Njeri me ensinou que estar viva é a minha maior forma de afronta ao Ocidente. Estou tentando sobreviver e manter os meus vives. 
 
Compreendo que os acessos que tive na vida, somados ao esforço diário e a orientação dos meus orixás e guias, me fizeram chegar onde cheguei e tudo isso precisa servir a mais pessoas além de mim. Penso que a militância está presente nas coisas pequenas como dar um livro de presente para alguém, ligar para saber como nossa amigue está depois daquele tombo racista, ou simplesmente viver em coletividade de maneira feliz e saudável com quem amamos. 
 
 Sim, ando menos no foco e mais em família. Estou cuidando enquanto sou cuidada. Sigamos vives!