Renisse Ordine

08/07/2021
 
O peso do pássaro morto
 
 
Na escrita inovadora de Aline Bei, essa história tem o poder de desestabilizar o leitor, com um soco amargo em que as palavras podem ser engolidas sem o desperdício de sentimentos. 
 
Vida, insegurança, incompreensão, solidão, vazio, silêncio e morte. Que tristes palavras para descrever o íntimo! Que bom seria se elas fossem usadas somente para a ficção. 
Quantos de nós, terminamos o dia, sentindo o peso do pássaro morto em nossas costas. Tamanho as dificuldades que enfrentamos. Muitas vezes sozinhos, gritando em silêncio, falando com lágrimas e sentindo no pescoço as mãos geladas do desamparo. 
 
Nem sempre a felicidade depende somente de nós, não somos uma ilha, e o comportamento das pessoas que estão ao nosso redor, faz muita diferença de como iremos reagir aos problemas sociais e pessoais. 
 
È exatamente sobre isso que se trata o livro da escritora paulista Aline Bei. Um enredo cruelmente real, de uma personagem feminina que vai da infância a idade adulta, passando por intensas dificuldades e por silêncios tão cortantes como estiletes, em cada passagem de seu crescimento. Dos 8 aos 52 anos de idade. Por capítulos vamos conhecendo o interior dessa personagem sem nome, sem rosto. Que facilmente podemos encaixa-la em algum conhecido, ou em nós mesmos.
 
Em uma Live do Leia Mulheres Cruzeiro, tive o prazer de conversar com Aline, e por várias vezes comparei a leitura de seu livro, como entrar no mar e ser golpeada por uma forte onda que tira os seus pés do chão. È essa a sensação que tive, com sua prosa delicada e afiada, abordando temas como estupro, gravidez, morte e silêncio... Principalmente o silêncio!
 
Uma cadência de sentimentos, o seu jeito de abordar a dramaticidade dos valores da vivência, encanta a mente, mesmo diante de tantos desafios da personagem.
Da morte precoce de sua amiga de infância às outras mortes diárias que rispidamente a vida lhe presenteia, O peso do pássaro morto é uma leitura sensorial, que por muitas vezes procura te estabilizar por alguns instantes, para então te derrubar por diversas páginas. Daí você tenta respirar, se aplumar e lá vai outro tombo. 
 
Vindo como uma metáfora, O peso do pássaro morto, entre tantos sentidos pode facilmente ser interpretada como “morrer em vida” e levar dias sem significado, pesado e danoso. Mas, na verdade, a história recebeu este título a partir de um acontecimento na infância da autora, quando um passarinho acabou falecendo em suas mãos. 
 
Tempo
O problema foi a perda
 da parte 
de mim que
 acreditava, vazou no banho um dia 
pelo ralo, 
escorreu e a água  rápida mandou para o cano que levou para o rio.