Bia Crispim

09/07/2021
 
Parem de nos matar
 
No boletim nº 002-2021 produzido pela ANTRA (Associação Nacional de Travestis e Transexuais) divulgado em 05 de julho deste ano, as pesquisadoras Bruna Benevides (Secretária de Articulação Política da ANTRA) e Sayonara Nogueira (Presidenta do IBTE/ Observatório Trans) apontam para um número crescente de mortes de pessoas Trans/Travestis no primeiro semestre de 2021. 
 
O documento divulga a morte de 89 pessoas Trans, 80 delas assassinadas e 09 que cometeram suicídio. O boletim acrescenta que foram registradas ainda 33 tentativas de assassinatos e 27 violações dos Direitos Humanos.
 
Em janeiro desse ano uma menina Trans de 13 anos foi assassinada a pauladas na cidade de Camocim/CE. Ela foi considerada a mais jovem Trans a morrer por crime bárbaro de transfobia, desde que os relatórios, boletins e dossiês da ANTRA começaram a ser feitos em 2017.
 
O estado de Pernambuco não saiu dos noticiários esses dois últimos meses de junho e julho (e olha que nós nem passamos de 1/3 desse mês). Motivo?! Assassinatos ou tentativas de assassinato de pessoas Trans/Travestis ou manifestações de pessoas contra a barbárie que vem ocorrendo no estado. Vejamos algumas manchetes:
 
“Mulher trans é assassinada com tiro no Recife e família acredita em crime motivado por transfobia.
A cabeleireira de 37 anos usava o nome social de Crismilly Pérola e também era conhecida como Bombom ou Piu-piu. Caso ocorreu nesta segunda (05/07), na Várzea.”
Fonte: Portal G1
 
“Mulher trans é achada morta dentro de casa no Recife; companheiro é suspeito de assassinato.
Segundo as polícias, o corpo foi localizado, nesta sexta (18/06), em uma residência no bairro do Ipsep, na Zona Sul. Kalyndra Nogueira da Hora, de 26 anos, teria sido morta por asfixia, há alguns dias.
Fonte: Portal G1
 
“Mulher trans é queimada viva no centro de Recife; codeputada denuncia transfobia.
Negra e moradora de rua, a vítima denunciou o agressor, que foi apreendido pela polícia; vítima está hospitalizada.
Um crime brutal motivado por transfobia foi registrado na madrugada desta quarta-feira (24/06) em Recife. Uma mulher negra e transexual em situação de rua foi queimada viva no Cais de Santa Rita, centro da cidade.
A vítima foi conduzida pelo Serviço de Atendimento Médico de Urgência (Samu) até o Hospital da Restauração e teve 40% do corpo queimado.”
Fonte: Brasil de Fato
 
Estamos diante de um processo de extermínio que parece naturalizar a marginalização, a precarização da vida de boa parte das pessoas Trans/Travestis desse país para promover a aniquilação dessas pessoas. 
 
Voltando para o boletim, Bruna e Sayonara alertam: “continuamos vendo a ausência de ações por parte dos estados e municípios a fim de enfrentar a violência transfóbica que já vem sendo denunciada há alguns anos. Os estados continuam omissos, inclusive no levantamento de dados sobre lgbtifobia, homicídios e violações de direitos humanos das pessoas trans. O cenário de perseguição contra projetos que incluem diversidade sexual e de gênero e os assassinatos contra pessoas trans denuncia que este é o grupo mais vulnerabilizado, marginalizado e violentado dentre a comunidade LGBTI+, principalmente travestis e mulheres trans, que enfrentam maior processo de precarização de suas vidas.”
 
Muito pode ser feito para que essa naturalização do extermínio de vidas Trans/Travestis tenha um basta. O boletim aponta muitas recomendações, tais como a criação de protocolos policiais para enfrentamento da violência lgbtifóbica no brasil; a FORMAÇÃO para sensibilização e educação de agentes públicos em todas as áreas; a REALIZAÇÃO DE CAMPANHAS públicas que incluam a diversidade LGBTI+ a fim conscientizar sobre seus direitos, os impactos da transfobia e sobre os efeitos da criminalização da LGBTIfobia;  o COMBATE À IMPUNIDADE e a subnotificação de abuso e violência; a CRIAÇÃO E IMPLEMENTAÇÃO DE MEDIDAS LEGAIS  e políticas antidiscriminação, e AÇÕES AFIRMATIVAS/medidas positivas no campo da educação e do emprego, para evitar que qualquer pessoa tenha que depender da venda de sexo como meio de sobrevivência devido à pobreza ou discriminação; a INCLUSÃO no currículo escolar de temas ligados a educação sexual inclusiva, e a tolerância à diversidade. 
 
Fiz aqui um pequeno resumo do que traz o boletim e deixo a toda a sociedade civil, a todas as pessoas responsáveis pela criação de legislações, a todas as pessoas cis-aliadas ou não que reflitam sobre essa barbárie, da mesma forma que observem com atenção essas recomendações que podem mitigar essa violência desproporcional que estamos assistindo/lendo através da imprensa/mídia.
 
Só queremos ser! Só queremos existir! PAREM DE NOS MATAR!!!