Fabio de Oliveira

12/07/2021
 
Histórias para além do que se vê
 
 
“Bom dia. Somos da Venezuela e precisamos de uma ajuda para comprar alimentos. Deus abençoe”. É o que está escrito em um dos vários cartazes que leio nas minhas ocasionais saídas pelas ruas de Natal, e certamente você também vê. Mas será que consegue ver para além disso? O sistema invisibiliza as pessoas em situações de rua e nos acostumamos a olhar sem questionar quem eles/as são e o que os/as levou a chegar ali. Cada uma dessas pessoas existe numa coletividade e tem seus valores e subjetividades agredidos a todo instante, em uma sociedade em que um pedaço de papel com números tem mais valor que a nossa herança ancestral. Já parou para conhecer suas histórias?
 
No último ato do movimento indígena, além dos Potiguaras e Tapuias do RN, também estiveram presentes os indígenas Warao. Com o intuito de conhecer mais sobre meus parentes distantes, tenho lido e me aproximado deles e das questões que envolvem nossos/as parentes da Venezuela. Esse povo inevitavelmente partilha da mesma luta que a nossa e isso deixa nítido que as aspirações do modelo progressista e eurocentrista da elite passa por cima de tudo e todes para benefício próprio, dizimando, a curto prazo, nossa existência através do genocídio, etnocídio e ecocídio.
 
O povo Warao é o segundo maior grupo étnico do país e vive no nordeste da Venezuela, em uma área que compreende três estados: Delta Amacuro, Monaga e Sucre, fazendo divisas com a Guiana e Trindade e Tobago. As famílias sabem utilizar muito bem, e com respeito, suas terras e os ecossistemas. Conhecem na palma da mão a natureza que os cerca, as matas que desbravam e os rios que navegam em águas serenas.
 
Vários fatores foram responsáveis pelo afastamento do povo Warao de sua região. Na década de 60, a construção de uma barragem obstruiu o rio Manamo, afluente do rio Orinoco, visando a elevação do nível das águas para a navegação de cargas pesadas. Várias espécies da fauna e flora morreram por causa das águas do mar, que avançaram nesses canais fluviais, salinizando a terra e a água. As enchentes causadas pelo rompimento dessa barragem, na década de 70, mataram cerca de três mil indígenas Warao. A degradação dos principais meios de subsistência dos Warao, que foram afetados por esses fatores, somados à invasão nessas terras indígenas, foi outra consequência desses crimes.
 
Na década de 90, um surto de cólera nas áreas do Delta Amacuro levou a óbito cerca de 500 indígenas Warao e esse fato epidêmico provocou o afastamento forçado da população para áreas urbanas, cujas condições de atendimento para a população eram praticamente insalubres. Ainda que contasse com clínicas médicas nas outras cidades, população indígena foi tratada de forma violenta, discriminatória e ainda foi culpabilizada pela epidemia. No imaginário popular, era um “problema indígena” ocasionado pelo modo de vida e costumes.
 
Além dos fatores que citei, a gritante crise na gestão de Nicolás Maduro, entre 2014 e 2016, deixou o povo Warao à própria sorte. A apropriação e comercialização dos recursos naturais e ações petrolíferas multinacionais, ocasionou a degradação de qualquer forma de vida, provocando o etnocídio e ecocídio. Infelizmente, como em qualquer outro Governo, os povos não foram nem ouvidos, nem consultados.
 
A maioria do povo Warao vive nas ilhas, margens de rios e dutos. Os poucos que ainda permanecem nas terras originárias, usam a caça e a pesca, a agricultura – quando há terra para o plantio – e a coleta de frutas como principais atividades econômicas, além da confecção de artesanatos e produtos de carpintaria.
 
O povo Warao precisou se dispersar para áreas urbanas em busca de condições dignas de vida. Além do Estado do Rio Grande do Norte, migraram também para o Maranhão, Piauí, Pernambuco e outros Estados nos quais a Venezuela faz divisa, como Roraima, Amazonas e Pará. Somente em Natal há cerca de 28 famílias em abrigos.
 
A história dos nossos povos se cruza, mesmo em contextos geográficos distintos. A busca do povo Warao transcende o desejo de melhores condições de viver, sua busca é por continuar sendo Warao independentemente de onde estiverem.