Ana Paula Campos

14/07/2021
 
 
Pode o subalterno estudar?
 
 
Sim, o título desta crônica é uma referência ao ensaio homônimo – publicado inicialmente em 1976, que fez uma crítica aos intelectuais ocidentais sobre a possibilidade de agenciamento do sujeito subalterno – de Gayatri Chakravorty Spivak, a indiana e teórica literária, crítica feminista e professora de Literatura Comparada e Sociedade, na Columbia University, em Nova York. Estamos em 2021 e pensar os espaços acadêmicos é compreendê-los como lugares que rejeitam corpos negros. 
 
A suposição intelectual hegemônica europeia, sobre a capacidade de ação e fala do subalterno, omite contradições que tornam essa condição insustentável, mas que mesmo assim segue sendo validada e determina quem tem acesso à informação. A ampla divisão do trabalho operada pelo sistema capitalista não nos dá escolhas possíveis. Nosso futuro está posto. Desde de muito cedo sabemos quem nasceu para ocupar os cargos de poder e tomar decisões. 
 
Mas falar de pessoas negras, indígenas e LGBTIA+, é considerar que somos um povo diverso. Compartilhamos experiências comuns, mas alguns de nós carregam marcadores que conferem certa “passabilidade”. Neste caso, seria impossível falar em privilégios, porque isso não cabe em nossos corpos. Consideremos quais acessos temos e o que isso significa em nossas vidas pessoais e em coletividade. 
 
Sou uma mulher cis. Onde eu chego sou imediatamente lida como uma mulher nos padrões aceitos socialmente. Sou bissexual e minha orientação sexual não é percebida se não for revelada. Sou uma mulher negra de pele clara, parda, não preta. Assim como minhas irmãs negras, sofri e sofro com o racismo, mas sou mais “tolerada” nos espaços que não desejam pessoas pretas, ainda mais ocupando lugares de destaque. Sou filha de militar, um homem branco, então, tive acesso a uma educação de qualidade, o que me levou a conquistar o cargo de servidora pública. 
 
Por que é importante pautar tudo isso? Porque precisamos saber que existem outras formas de ser e estar no mundo e a depender do grau de distanciamento da norma padrão, você será mais ou menos aceito. Os acessos que tive na vida me conduziram até aqui. A maioria não teve a mesma “sorte”. Sorte? Lembrei de um discurso da minha amiga e intelectual Bia Crispim. Pessoas negras, indígenas e trans são, em sua maioria, “abandonadas à própria sorte”. 
 
Eu olho ao redor, vejo amigues lutando pela sobrevivência na labuta diária. Livros, apesar de necessários, são artigos de luxo. A fome fala mais alto. Alguns livros e artigos estão disponíveis na internet de forma gratuita, mas surge outro complicador: o tempo para leitura.  São pessoas que já foram expulsas dos espaços escolares e universitários, de forma direta ou subjetiva. Meu amigo André Sacramento diz que “a escola é lugar de moer gente preta”... preta, trans, indígena, quilombola, macumbeira... É um funil e ainda há quem fale em meritocracia. 
 
Enquanto isso, pessoas brancas têm acesso aos livros recém publicados no Brasil como os de Toni Morrison e Alice Walker, mas o que fazem deste conhecimento? Usam contra nós. Tomam nosso lugar de fala. Falam por nós sobre nós. Se é para falar de racismo e religiões de matriz africana, pessoas brancas são mais “palatáveis”. A luz e a razão caminham de mãos dadas com eles/as. E o que você, pessoa cis, hetero, cristã e branca tem feito de concreto, além de falar por nós?