Crispiniano Neto

14/07/2021

 

A cultura potiguar em dois tempos: Vencendo os contratempos

 

É por demais evidente que a infraestrutura da cultura no Estado do Rio Grande do Norte está rompendo a incerteza de uma encruzilhada donde corria o grave risco de seguir trilhando o caminho da decomposição, no qual, se continuasse seguindo às cegas como vinha, poderia se precipitar, sem direito a retorno, no caos da impossibilidade de garantir cidadania cultural ao nosso povo e aos visitantes. E olha que todos falam que estamos num Estado onde o Turismo é o mais forte dos setores da Economia no campo dos serviços. Não restam dúvidas de que já somos um centro de excelência no que concerne ao Turismo de sol e mar. O que falta é agregar à nossa natureza exuberante e à rede receptiva já consolidada, a nossa cultura, visto que o Turismo Cultural é o quarto segmento mais rentável da indústria sem chaminés e o Rio Grande do Norte, esquina do continente, guarda nas suas paredes da memória marcas indeléveis da história, dos saberes e sabores acumulados em mais de cinco séculos que nos contemplam.

Natal, em seus 422 anos guarda belezas e encantos que nos fazem encontrar em todos os recantos por onde já batemos pernas, gentes desejosas, de brilho no olho, de visitar nosso chão.

Nossa capital não é tão velha quanto as principais capitais europeias, mas Lisboa, chamada de ‘Farol da Lusofonia’ e porta de entrada da Europa, por cujo aeroporto passam 20 milhões de turistas/ano, 4 milhões dos quais param para comer bacalhau e é o décimo primeiro destino turístico mais popular entre as belas cidades do mundo, guarda história desde o neolítico passando pelos fenícios, romanos, muçulmanos e judeus, mas sofreu um terremoto em 1755 que destruiu a cidade quase que inteiramente, fazendo com que a Lisboa que hoje visitamos seja 159 anos “mais nova” que Natal. E ainda teve a roubalheira de bens históricos pelas mãos ávidas de butins dos franceses invasores de Napoleão e tudo de histórico e cultural, que foi carregado às pressas pela gigantesca comitiva dos fugitivos de Dom João VI, a ponto de Dona Maria, a Louca, gritar “Não corram tanto, vão pensar que estamos a fugir!”. Assim, mesmo, sem gerúndio, claro.

Cá da nossa banda temos nossos cidadãos de todas as idades carecendo de informações mais claras sobre o papel estratégico do Rio Grande do Norte na cultura histórica e na cultura artística e antropológica. Como podemos não ter uma forte presença do folclore na vida dos potiguares e dos visitantes.

Na Era das grandes navegações, seja ou não, o Pico do Cabugi, em Angicos, como defende Lenine Pinto ou a Serra Verde, em João Câmara o pico visto por Pedro Álvares Cabral, em detrimento do baiano Monte Pascoal, não há como se questionar a importância do Rio Grande do Norte para os egressos da “Escola de Sagres”.

Basta dizer que o primeiro marco do domínio português é o Marco de Touros, chantado já em 1501, por uma esquadra comanda por Gaspar de Lemos. O marco em pedra lioz é tido como Certidão de Nascimento ou Batistério, do Brasil; Nosso Estado também é destaque na Era Colonial, quando a Capitania do Rio Grande se arrastava desde as pancadas das ondas do Atlântico até o Meridiano de Tordesilhas, nas imediações de Marabá, no atual Estado do Pará, englobando terras que hoje são do RN e pedaços da Paraíba, do Ceará, do Piauí, do Maranhão, do Tocantins e do Pará, com uma costa de cem léguas de sesmarias. Nossos índios, tanto tapuais quanto tupis foram guerreiros aguerridos e, não por acaso os invasores não deixaram uma tribo em pé nestas terras de Felipe Camarão, Jandhuí, Paraupaba, Jandi, Cantofa e Canindé; Na guerra dos impérios europeus, foi aqui que se deu uma forte presença da Companhia Neerlandesa das Índias Ocidentais, confrontando, mais que os impérios holandês e espanhol/português, os modelos de economia estatal e privada, cujo debate se arrasta até os dias que correm; Nos tempos da escravidão, foi o RN que teve a quinta cidade brasileira a libertar os escravos, Mossoró, logo depois do Ceará e serviu de entreposto de fuga de escravos entre a zona canavieira escravista polarizada por Pernambuco e a terra libertária do Dragão do Mar, onde um dos grandes líderes intelectuais era o potiguar Almino Afonso. Não por acaso temos hoje reconhecidas cerca de 60 comunidades remanescentes de quilombos; na luta pela independência e proclamação da República, quando participamos da Confederação do Equador e de todos os grandes eventos.

Na Segunda Guerra Mundial tivemos uma participação gigantesca. Diga-se de passagem, fundamental, pois se Hitler tivesse invadido Natal, como chegou a cogitar, o destino do mundo poderia ter sido outro e o Reich poderia ter estendido suas garras, se não pelo milênio que sonhava, mas por mais algumas décadas. E se nosso País não tivesse entrado na Guerra na “Conferência do Potengi”, não tanto pelo peso das nossas forças, mas muito mais pela importância estratégica, a guerra, dizem pesquisadores, poderia ter durado mais cinco anos.

As marcas das histórias dessa História estão sendo reconstruídas, restauradas, ressignificadas, com denodo e agregação de valor, com foco em transformar 2021, em “Ano da Cultura Potiguar”, como já cunhou a professora Fátima Bezerra, governadora do Estado, que, determinadamente bateu o pé e determinou que até os dias que vão entre o Natal e o Ano Novo quer, entregue aos potiguares e turistas, a infraestrutura da cultura potiguar, revivida e repaginada.

A EDTAM – Escola de Dança do Teatro Alberto Maranhã, já está pronta, esperando os ‘humores’ da pandemia para reiniciar as aulas presenciais. Obra de dois milhões que quando este governo começou estava somente com 2%. Recursos do Estado, através do empréstimo do Banco Mundial;

O Teatro Alberto Maranhão, que estava só com 4% da obra prontos, já foi concluído e está vendo se materializar a antes improvável Caixa Cênica, num investimento de 12,3 milhões, no conjunto da obra.

O Palácio Potengi da Cultura, nossa deslumbrante Pinacoteca do Estado, que encontramos com apenas 2% está em fase de conclusão, num investimento de 6,4 milhões do Estado, via Banco Mundial;

O Forte dos Reis Magos, palco da dominação portuguesa e invasão holandesa nos foi entregue com apenas 1% de realidade do projeto de restauração. Está prestes a ser entregue num investimento de 4,7 milhões;

O Papódromo está pronto. O projeto só tinha 1% realizado quando o Governo começou;

A Biblioteca Câmara Cascudo, trauma maior de um tempo de fechamento de estruturas, caminha, de marcha batida para ser inaugurada até o final de outubro, com mais de dois milhões de reais de investimentos, com recursos próprios do Estado do RN, do Governo Federal e do empréstimo do Banco Mundial.

Ainda temos, em luta para reabrir ao público, o Museu de Café Filho e o Memorial de Câmara Cascudo. As Casas de Cultura que são 28 espalhadas pelo corpo do elefante estão com as atividades retomadas, precisando, é vero, de investimentos que em breve virão. E estamos agregando mais doze casas de cultura parcerias que são dos municípios e se incorporarão às nossas atividades;

Quanto à democratização das definições da Política Cultural, mudou-se a cultura política e hoje resolvemos tudo em diálogo com 16 câmaras setoriais cobrindo quase todas as linguagens artístico-culturais. E quanto à democratização dos recursos da cultura, já fizemos 20 editais em dois anos de gestão, fazendo chegar às mãos de artistas e produtores culturais mais de 30 milhões de reais.

Ano da Cultura, sim, pois além destas ações concretas e estruturantes, estamos comemorando neste ano da graça de 2021, juntamente com o Conselho Estadual de Cultura, 100 ANOS do nascimento de Homero Homem, 100 anos de nascimento de ADEMILDE FONSECA, Rainha do Chorinho Brasileiro, 110 ANOS do nascimento do poeta e romancista José Bezerra Gomes; 70 ANOS de nascimento do poeta repentista Severino Ferreira; 90 anos de vida do compositor Janduhy Finizola; 150 ANOS do nascimento do maestro Tonheca Dantas, 100 ANOS do nascimento do folclorista e escritor Veríssimo de Melo, 70 anos da cantora Terezinha de Jesus, 100 anos do nascimento de Paulo Freire, pernambucano que ensinou a alfabetizar em 40 horas, aqui no RN e 30 anos da morte do poeta Renato Caldas, além dos cem anos do lançamento de Alma Patrícia, primeiro de Luís da Câmara Cascudo.

Contratempos não faltam. Mas que os tempos são outros, são.