Eliade Pimentel

19/07/2021
 
Entrei na rua pensando em Lúcia
 
 
Ela nunca foi minha amigona, mas a conheço desde a infância, lá do tempo da igreja. Sempre a admirei. Pela coragem, ousadia e beleza, além de uma simpatia incrível. O tempo aprimorou sua aparência, seu estilo, ressaltando a personalidade da mulher que saiu de casa ainda bem jovem, montou seu salão de beleza na Cidade Alta, nele vive e dele vive há décadas. É tanto que no último dia em que eu fui ao centro da cidade, semana passada, quando me virei naquele trecho da Princesa Isabel, entrei na rua pensando em Lúcia. 
 
Inicialmente, como não havia comido nada substancial, lembrei primeiro de Nino, da cafeteria D. Neide Doces Caseiros (ele é o filho, gerente/caixa e barista). Mesmo sendo hora de almoço, preferi relembrar os velhos tempos em que apenas tínhamos opção de lanches, leves ou reforçados.  Um capuccino, uma empada de camarão e um tico de conversa. Falamos das gerações, das vantagens da nossa, a geração x, que nasceu no analógico, transitou para o digital e sabe retroceder e se adapta, tudo de acordo com as necessidades. 
 
"Antes mesmo da pandemia fechamos o self-service", explicou-me a proposta atual, prato executivo - o velho e bom pf - por um preço fixo. Era sexta e a pedida principal era feijoda, "temos strogonoff também", passando pela minha mesa com um prato montado com arroz e batata palha. No início, relembramos, normalmente além dos salgados tradicionais  tinha salpicão de frango ou um sanduíche chamado "strata" - nada mais do que um misto de forno - além das tortas doces, como a maravilhosa de limão, pudins, pavês, bolos para café ou recheados e os doces caseiros. 
 
Que delícia. Algumas coisas se mantêm, mas sob encomenda. Para beber, sucos de tudo quanto é fruta, café expresso e o melhor capuccino do centro - pelo menos que eu acho, pois vem com gosto de memória afetiva. Desde os primórdios de 1993, ano que eu entrei na UFRN e oficialmente adentrei na vida adulta, que me lembro de ter iniciado essa saga na casa de dona Neide, até hoje em dia.     
 
Terminado meu lanche e minha prosa, estava eu em pé, preparando-me para pagar, e ela aparece. Logo ela, que permeou meus pensamentos antes mesmo de eu entrar na rua. "Tem o quê para almoçar?". Eu digo, Lúcia! E ela, meio desconfiada, percebo e tiro a máscara, reconhece-me, porém, não tão entusiasmada como eu, apenas me dá um cartão de visitas. Vi que ela acrescentou "recreadora infantil" nas atribuições. Linda. Maravilhosa. Encantadora de crianças oficialmente agora. Me diz rapidamente, "vou almoçar, tchau", como se me visse todo dia, e sai. 
 
Dois encontros, mais o que fui resolver na Ótica Su, um pequeno estabelecimento localizado na rua Ulisses Caldas, de uma "prima" adotada pela coincidêcia do sobrenome, chamada Suelene Pimentel. Por acaso, o pai de Lúcia foi meu primeiro ótico, seu Lima, na ótica Boa Vista, que na época era na mesma rua, Princesa Isabel, trecho ao contrário, na Galeria Rio Branco. Depois, ficou sendo até hoje na avenida Amaro Barreto, no Alecrim, com os irmãos Júnior Lima e Edna. 
 
Desço para o Banco do Brasil e encontro Fia, na porta da agência. Tiro 100 reais e reservo 10 para ela. Por quê? Moradora do Passo da Pátria, 6 filhos, minha amiga desde os idos de 1997. Meu Deus, penso, essa volta no centro hoje tão tão preenchida. Tão cheia de memórias. Me comprometo de ajudar numas demandas de cirurgia, de roupas usadas, essas coisas. Ela foi atropelada, fez 7 cirurgias, e ainda sofre. Não consegue andar com os dois pés no chão. 
 
Aliás, sem pés no chão estamos todos nós. Ainda bem que podemos dar uma volta e, com tão poucos elementos, voltarmos para dentro de nós mesmos. Assim me senti e me sinto, sempre que posso dar uma voltinha e fazer certas coisinhas que ninguém jamais faria por mim. Quem comanda nossos pensamentos? Quem é que diz quando temos fome, quando temos sede? Nós mesmos. Experimente fazer isso. Uma simples volta no quarteirão te deixará mais forte. Seja pensando em alguém, seja pensando em nada.