Ana Paula Campos

28/07/2021
 
EU SOU CRINGE?
 
Estamos vivendo na Era Digital e neste contexto todas as informações circulam com uma rapidez incrível pelas redes sociais. E foi assim, pelo Facebook, que descobri que sou cringe. E foi justamente por sê-lo, que tive que correr para o Google e pesquisar o significado da expressão. Depois de muitos memes e risadas, fiquei pensando mais profundamente e com seriedade sobre o assunto. Bem cringe, né? O fato é que cheguei a algumas reflexões que fizeram sentido para mim e gostaria de compartilhar com você, cringe ou não. 
 
De acordo com alguns sites, a gíria de origem inglesa, é usada para se referir a algo vergonhoso ou constrangedor. Algo ou alguém considerado velhe e ultrapassade. Aquele sujeito que vive “pagando mico”. Bom, eu penso que esta definição é perfeita, se analisarmos o termo pelas lentes ocidentais.  O que se esconde atrás das piadas é o valor de uma sociedade que vê a pessoa idosa como alguém que já não tem mais como contribuir, seja no aspecto profissional, seja no sentido intelectual. 
 
Em uma sociedade capitalista, o que pesa é a sua capacidade producente. Conforme o tempo passa para nós, o mercado vai perdendo o interesse em nossos serviços e nos substitui por jovens recém saídos dos bancos universitários, considerando que os saberes dos mais velhes estão, de fato, obsoletos. Somos descartáveis à medida que envelhecemos. 
 
Para o Ocidente, conhecimento é sinônimo de tecnologia e, para ele, isso caminha de mãos dadas com a juventude. Pessoas idosas, além de retrógradas, saem do campo da produtividade e caem no limbo do fardo coletivo, sendo violentades em um processo de infantilização. Você já deve ter ouvido a seguinte frase: “quando a gente envelhece, volta a ser criança”. Nessa perspectiva, já não trabalhamos mais, passamos a “dar trabalho a quem cuida de nós”. 
 
Agora com “crianças-idosos” sob sua responsabilidade, precisam de soluções estratégicas, uma vez que estão ocupades demais servindo ao sistema capitalistas, enquanto ainda são úteis e, claro, não têm tempo para desperdiçar com alguém que já não contribui para a renda familiar. E assim vamos testemunhando uma prática corriqueira desta sociedade, que consiste em abandonar seus mais velhes em asilos para que sejam cuidados por terceiros. Alguns até equipados com as mais recentes tecnologias, mas que não são capazes de substituir o carinho e a troca familiar. 
 
Tudo que narrei até agora é tão verdadeiro que temos medo da velhice. Tentamos a todo custo adiar este momento. Plásticas, drogas lícitas e maquiagem são armas poderosas para fugir deste estereótipo. Mentir ou esconder a idade, ou até mesmo fazer aquelas manjadas piadas nas redes sociais sobre a rainha da Inglaterra – que de acordo com o termo inglês, além de cringe, é imortal, nos dando a entender que já passou da hora da sua partida – evidencia o quão custoso é o simples ato de envelhecer para os ocidentais. Se analisarmos as mesmas questões pela ótica indígena ou africana, teremos outra perspectiva dos fatos. Como disso certa vez meu mais velho bàbá Sidney Nogueira, “cabelo branco é coroa”. Essa é uma sabedoria ancestral de terreiro. Para nós, africanes ou africanes em diáspora, envelhecer é uma dádiva. Acumulamos através dos anos saberes que só são adquiridos e compreendidos com a senioridade. Nos tornamos pessoas, homens-e-mulheres-memória. E, como nos ensina outro mais velho, Amadou Hampâté Bá, à medida que envelhecemos, carregamos um arsenal de conhecimentos em nossas mentes; quando morremos é como se toda a comunidade perdesse uma biblioteca viva. 
 
Da mesma forma é para os povos indígenas. Para Davi Kopenawa, a sociedade ocidental apostou tudo na tecnologia, esquecendo-se da tradição de passar nossos conhecimentos de geração em geração, a partir de longas rodas de conversa. A prática de reunir-se em torno dos mais velhos, para ouvir seus ensinamentos, vem morrendo junto com elxs. Esquecemos que elxs são xs verdadeirxs sábixs. Guardiões e guardiãs dos saberes dos ancestrais e que hoje passeiam entre os sabres adquiridos nesta vida e as experiências de tantas vivências. 
 
Quando penso em velhice, fico com as palavras dos meus e das minhas mais velhes. Recordo os dizeres de bàbá Rodney William, em sua obra “A benção aos mais velhos: poder e senioridade nos terreiros de candomblé”. Aqui bàbá nos presenteia com palavras poderosas: “a velhice é uma construção cultural, mas vivenciada de maneira singular. Afastá-la de uma reflexão calcada na ideia de doença pode, inclusive, evitar a desvalorização social do idoso”.
 
Sim, eu sou cringe e isso é magnífico. Significa que tenho bagagem ancestral e prática, as quais estão me ajudando a caminhar de mãos dadas com minha família. Nessa jornada, quanto mais eu conheço sobre a filosofia de terreiro, africanas e indpigenas, mais eu me distancio do pensamento e práticas do Ocidente. Em uma sociedade na qual existe uma hierarquia invertida, relembrar a sabedoria dxs mais velhes é fundamental para manter nossxs idosxs vivendo em segurança e paz