Eliade Pimentel

23/08/2021
 
Um fantasma chamado Debinha
 
De repente, a porta de minha casa que vivia aberta perde o sentido de liberdade e passa a ter o significado de invasão, ocupação indevida. Um fantasma chamado Debinha encontrou minha casa, meu lar, minha privacidade. Dentre tantos privilégios que eu tenho, não me preocupar em portar as chaves de casa era um deles. Mas, o que obrigou minha mudança de atitude esses dias foi esse ser notívago, com hábitos semelhantes aos de um timbu, que apareceu sem ser convidado em minha humilde residência. 
 
“Mamãe, podíamos deixar umas roupas que a gente não quer mais assim expostas, disponíveis para Debinha”. A solidariedade de minha filha para esta mulher que nos invadiu a casa, levou objetos aleatórios como um requeijão lacrado, uma calça jeans, umas roupas íntimas e uma máquina digital emprestada que eu nunca devolvera ao dono, me fez pensar sobre a drogadicção. A maioria das pessoas trata os dependentes químicos como a escória da sociedade. Talvez até eu mesma os trate com desdém. 
 
Parei para pensar. Quantas Debinhas temos por aí. Pessoas que se renderam totalmente a algum tipo de vício, que não vivem mais, que não deixam ninguém em paz, que furtam, que assaltam, que matam. Ao tentar ajudar alguém muito próximo numa situação semelhante, certa vez ouvi da boca de uma psicóloga: os drogadictos não têm amor a si mesmos, que dirá ao próximo. Foi naquele dia que minha compaixão passou a ser diluída. Sequer tento me colocar no lugar deles. 
 
E delas. Das mulheres que vagam noite adentro, quintais afora, em busca de uma droga que lhes preencha algo na mente. Eu me pergunto, sempre, porque se entregar a algo, porque a dependência química é tão mais forte do que esses inúmeros seres humanos que foram jogados na sarjeta, impulsionados por algum tipo de vício. Tenho ido ao centro da cidade, encontro amigos e conhecidos em situações de entrega, nas ruas, sem credibilidade nenhuma. 
 
Por outro lado, vejo pessoas querendo ajudar. Esses dias, vi a divulgação sobe um personagem clássico da Cidade Alta. O rapaz está doente, estão fazendo vaquinha e no mínimo contam com o desejo de mudança, que ele queira sair dessa vida. A subjetividade humana é devastadora. Não ter forças para seguir o caminho contrário ao da destruição é realmente lamentável. Diariamente, milhares e milhares pessoas estão em situação de rua, a maioria por conta de alguma dependência. Por que tantos de nós, seres humanos, somos tão fracos? 
 
Ou mesmo tão fortes, resilientes, visto que tantos desses personagens resiste por anos às intempéries dessa vida louca. Pessoas que estão por toda parte, são quase onipresentes, como a moça que eu nunca vi, mas que circula em nossa comunidade. Na nossa casa no Alecrim, é comum os moradores de rua pedirem água ou até um pouco de comida. Às vezes, vejo o meu irmão indo à cozinha, ele frita um ovo, ajeita uma vasilha com alguma coisa que sobrou do almoço. Eles não deixaram de acreditar em nós, tampouco deixamos de exercer nossa solidariedade. Mas, fazemos apenas o que está à mão. 
 
Sinceramente, me angustia não poder fazer nada além. A drogadicção é algo quase sem volta para a grande maioria das pessoas que enveredam por esse caminho. Gostaria de poder ajudas as tantas Debinhas que existem por aí, que vivem essa vida incerta, mas sinceramente, não consigo nem pensar no primeiro passo para lutar contra um dos grandes males que assolam a humanidade. A dependência química.