Bia Crispim

10/09/2021
 
Meu pai é fogo
 
Após a notícia da passagem do meu pai no final da tarde do sábado (04/09) venho recebendo muitas mensagens de consolo, de encomendação de sua alma e de várias histórias as quais tinham meu pai como um grande e benevolente protagonista. Mas uma delas, enviada por uma amiga de infância, compartilhada em seu grupo familiar, seja, talvez, a história mais impressionante da vida do meu pai que eu já tenha ouvido. História que tive o prazer e a emoção de ouvir por sua própria voz e que fala por si sobre o homem que ele era.
 
Vou transcrevê-la na íntegra: “Tobias é de Carnaúba (na verdade é nascido em Cruzeta, mas viveu muitos anos em Carnaúba dos Dantas) e somos muito gratos a ele: no ano de 1959 meu irmão mais velho (José) caiu em um poço de uma serra, chamado "Tanques", bateu com a cabeça em uma pedra e faleceu afogado. O corpo do meu irmão ficou preso às pedras e ninguém conseguia retirar o seu corpo. Esse cidadão, juntamente com outro nosso conhecido, disseram ao meu pai que iriam mergulhar e só sairiam da água quando encontrassem o corpo de José. Assim o fizeram. O meu irmão estava com a cabeça presa em uma pedra. Quem conhecer parentes seus, transmita nossos sentimentos e o agradecimento de toda a nossa família (eu, Tarcísio, Luizinho, Fátima, Iris, Iára, Marcos, Dioclécio e Gracinha). Ele se doou e deu a vida para retirar o corpo do nosso irmão para sepultamento. A nossa retribuição é com orações.”
 
Em outro comentário enviado pela mesma amiga dizia: “Nessa época Tobias só tinha 17 anos, mas já tinha uma grandeza no coração.” Sim, meu pai sempre teve esse coração enorme e generoso. Como uma grande fogueira que aquece quem estiver em sua volta. Que protege do frio e de ataques de animais. 
 
Em toda a minha vida, nunca vi meu pai negar nada a quem lhe pedia ajuda. Nunca! Lembro da minha casa sempre cheia, não só porque somos uma família numerosa, mas porque a casa do meu pai era pouso para quem quer que o conhecesse. Tenho muitos primos e primas que trato como irmãos e irmãs porque moraram conosco em várias etapas da vida, alguns como aprendizes de carpinteiro, algumas que vieram estudar na cidade, outros em busca de melhoria de vida... Alguns de passagem... Mas a porta de sua casa estava sempre aberta. Até hoje a casa de meus pais é casa de muitas camas vazias e redes armadas, esperando sempre por alguém. 
 
Casa com três mesas grandes as quais meu pai amava ver cheias de comida e gente ao redor, comendo, falando, rindo. Meu pai sempre foi festa... Ele era quem preparava a feijoada, a favada, a mocotozada... Natal, São João, dia das mães, dia dos pais, aniversários... Comida farta e muita zoada. Muuuuuuita! E ele era o maior agitador. Sim, senhor! Sim, senhora! Era ele quem mais tinha histórias pra contar, sem falar de seus instrumentos, sempre afinados, na espera de um ajuntamento de gente para entoar canções e músicas de outras épocas.
 
Eu amava o São João. Apesar de meu elemento ser água, eu amo o fogo. Era maravilhoso ver meu pai montar a maior fogueira da rua... Era sinal de brasa, comilança e hora alguma pra dormir. O forró era ao vivo. Como disse, papai era festa. E fazia festa com quem chegasse. E no São João, na rua, na calçada de casa, virava festa de toda a vizinhança.
 
Meu pai também era um homem de muita fé. Religioso desde que me entendo por gente. Devoto de Nossa Senhora dos Remédios, padroeira de Cruzeta, fazia questão de carregar seu andor nas procissões. Lembro-me de ficar na calçada da casa do meu avô materno, lá em Cruzeta, esperando o andor passar para seguirmos a santa e nosso pai até a igreja. Devoto também de Sant’Ana, em cuja matriz, em Currais Novos, sua presença se fazia constante até enquanto pode estar lá. Sempre na liturgia, sempre com um violão a tiracolo... Sempre pronto.
 
Resgato essas memórias como forma de homenagear meu pai, seu Tobias, que nos alimentou de tudo isso: generosidade, coração enorme, solidariedade, acolhimento, fartura, fé, amizade, música, festa, amor,... Meu pai e seu imenso amor por todas as pessoas...
 
Se eu comecei essa coluna falando de água quero terminá-la com fogo... Fogo da fogueira de São João, fogo de vida intensa que meu pai carregava, fogo do Espírito Santo que emanava dele/nele. Fogo de vida que ele atiçava em nós. Trago um trecho de Eduardo Galeano em seu O Livro dos Abraços: “Cada pessoa brilha com luz própria entre todas as outras. Não existem duas fogueiras iguais. Existem fogueiras grandes e fogueiras pequenas e fogueiras de todas as cores. Existe gente de fogo sereno, que nem percebe o vento, e gente de fogo louco, que enche o ar de chispas. Alguns fogos, fogos bobos, não alumiam nem queimam; mas outros incendeiam a vida com tamanha vontade que é impossível olhar para eles sem pestanejar, e quem chegar perto pega fogo.”
 
Continue brilhando e nos aquecendo, meu amor!